quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 3 - Chapada Diamantina : Pratinha e Doces D´Afra



O ritmo do tempo

Chuva. Dia molhado. Deixamos a preguiça dar o tom em meio a uma manhã marasmática, lá fora as gotas d’agua sacolejavam as folhas, barulho hipnotizante de chuva que por um lado atrasou nossa saída, por outro foi um atrativo por si só.

Depois de algumas dicas de outro casal turista decidimos visitar a Pratinha, caminho de 52 km, sentido norte da Br 242, estrada sinuosa e cheia de buracos que surgiam de surpresa, nos manteve atentos e garantiu uma dose de adrenalina no trajeto. Em frente o Parque Nacional nos recebia, um cenário de cânions alaranjados que apontavam no horizonte plano, sensação de sermos meros crustáceos percorrendo o fundo de um oceano, o céu era a agua.

A Fazenda da Pratinha é uma tentativa de complexo turístico em meio ao parque e arredores, em formato pasteurizado, artificial, falta um pouco de estrutura e ser mais bem cuidado para justificar os R$50 que te cobram na entrada. O que salva é a beleza natural ao redor, como o espaço para banho, representado por uma pintura azul celeste de superfície, destacando o fundo de areia, pedras e algas. Embora a chuva por uma lado tenha ofuscado a visão do cenário tropical, ela nos garantiu diversão e muitas escorregadas na lama. Também visitamos por lá a Gruta da Pratinha, mistura perfeita de caverna subaquática com aguas na cor azul polinésico enquadrado por paredões rochosos. Olhar ao redor e ver toda essa combinação que nasce no interior baiano é um momento daqueles que nos fazem refletir.

Na volta para Lençóis entramos em Campos de São João, um município pacato de Palmeiras, tínhamos um motivo, visitar a Dona Janete, doceira raiz dos Doces D’Afra, “aprendi a fazer doces com minha mãe há 50 anos e enquanto tiver saúde continuo fazendo”, foi com essa apresentação que ela nos recebeu em sua casa, “pode entrar”. E entramos, pedindo licença, não só por entrar em sua casa, mas por absorver um pouco daquele momento, o cheiro de doce de jaca no ar, sua casa simples, portas e janelas de madeira, sem forro no teto, imagens de santos na parede, moveis antigos, uma viagem ao passado no presente. Em sua cozinha aquela senhora de pele bronzeada pelo sol, enrugada pelo tempo, nos oferece uma degustação das suas geleias, doces de leite e licores, uma mistura de sabores da Bahia, frutas típicas como Umbu, Guriri e uma Ambrosia que fecho os olhos e ainda posso degusta-la como se tivesse em minha frente.

“Tudo que eu faço é natural, sem conservantes”. E é natural sim Dona Janete, os doces, seu jeito, os traços do tempo, a autenticidade, a conversa mansa, o espírito da Chapada, aonde o desejo é tanto de se parar o tempo que em alguns lugares parece que ele realmente pegou leve, caminhando em passos lentos, retardando o tic tac do relógio, respirando e congelando cada instante. Mais uma lição de vida arquivada.


Morro do Pai Inácio


Caminho para Pratinha

Gruta da Pratinha

Doces D'Afra

 

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