O ritmo do tempo
Chuva.
Dia molhado. Deixamos a preguiça dar o tom em meio a uma manhã marasmática, lá
fora as gotas d’agua sacolejavam as folhas, barulho hipnotizante de chuva que
por um lado atrasou nossa saída, por outro foi um atrativo por si só.
Depois
de algumas dicas de outro casal turista decidimos visitar a Pratinha, caminho
de 52 km, sentido norte da Br 242, estrada sinuosa e cheia de buracos que surgiam de surpresa, nos manteve atentos e garantiu uma dose de
adrenalina no trajeto. Em frente o Parque Nacional nos recebia, um cenário de cânions
alaranjados que apontavam no horizonte plano, sensação de sermos meros crustáceos
percorrendo o fundo de um oceano, o céu era a agua.
A Fazenda
da Pratinha é uma tentativa de complexo turístico em meio ao parque e
arredores, em formato pasteurizado, artificial, falta um pouco de estrutura e
ser mais bem cuidado para justificar os R$50 que te cobram na entrada. O que
salva é a beleza natural ao redor, como o espaço para banho, representado por
uma pintura azul celeste de superfície, destacando o fundo de areia, pedras e
algas. Embora a chuva por uma lado tenha ofuscado a visão do cenário
tropical, ela nos garantiu diversão e muitas escorregadas na lama. Também visitamos
por lá a Gruta da Pratinha, mistura perfeita de caverna subaquática com aguas
na cor azul polinésico enquadrado por paredões rochosos. Olhar ao redor e ver
toda essa combinação que nasce no interior baiano é um momento daqueles que nos fazem refletir.
Na volta
para Lençóis entramos em Campos de São João, um município pacato de Palmeiras,
tínhamos um motivo, visitar a Dona Janete, doceira raiz dos Doces D’Afra, “aprendi
a fazer doces com minha mãe há 50 anos e enquanto tiver saúde continuo fazendo”,
foi com essa apresentação que ela nos recebeu em sua casa, “pode entrar”. E
entramos, pedindo licença, não só por entrar em sua casa, mas por absorver um
pouco daquele momento, o cheiro de doce de jaca no ar, sua casa simples, portas
e janelas de madeira, sem forro no teto, imagens de santos na parede, moveis
antigos, uma viagem ao passado no presente. Em sua cozinha aquela senhora de
pele bronzeada pelo sol, enrugada pelo tempo, nos oferece uma degustação das
suas geleias, doces de leite e licores, uma mistura de sabores da Bahia, frutas
típicas como Umbu, Guriri e uma Ambrosia que fecho os olhos e ainda posso degusta-la
como se tivesse em minha frente.
“Tudo
que eu faço é natural, sem conservantes”. E é natural sim Dona Janete, os
doces, seu jeito, os traços do tempo, a autenticidade, a conversa mansa, o
espírito da Chapada, aonde o desejo é tanto de se parar o tempo que em alguns
lugares parece que ele realmente pegou leve, caminhando em passos lentos,
retardando o tic tac do relógio, respirando e congelando cada instante. Mais uma lição de vida arquivada.
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| Morro do Pai Inácio |





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