Do interior para o litoral
Chuva ao amanhecer, trazendo
a cor imparcial do cinza, a mesma que resumia o sentimento ao partir, triste
por ir, feliz por ter conhecido. Aquilo que um dia foi sonhado se realizou,
para então deixar lugar para recordações. Daqui pra frente continuidade e
saudades das histórias de um lugar que agora se torna parte das nossas
histórias. Lembranças de paisagens cênicas, plantas nativas, flores de novembro,
aroma cítrico adocicado no ar, sons dos pássaros, sorriso das pessoas... São
tantas as riquezas, muito além das geradas pelos diamantes, falo das
verdadeiras joias do Brasil: Seu povo, sua fauna e flora.
Antes de seguir estrada
tivemos tempo de conhecer o Brejo, um antigo garimpo, que data de 300
anos de exploração, tendo sido proibido em meados de 70. O local é uma gruna,
formada pela mão humana, túneis com quilômetros de extensão são frutos
da extração de toneladas de pedras que traziam em suas ranhuras muitos
diamantes que iam para o bolso de coronéis exploradores. O povo que trabalhou
por anos no regime de escravidão ou próximo a isso mantém até hoje suas
batalhas diárias e rancores do milicianismo que trouxe exploração e sofrimento.
Com uma lanterna na mão, somos guiados por descendentes dos mineradores por
metros dentro da terra, o clima é abafado, a sensação claustrofóbica e de
insegurança é constante. O cheiro no ar é de ferro e o único barulho que se
escuta são de morcegos e gotas que escorrem das rochas. Chegamos numa enorme
câmara formada por pedra entalhada, lá o guia acende dezenas de velas em
homenagem aos garimpeiros que morreram ali, uma para cada, iluminando o ambiente
em tom vermelho além das pobres almas.
Nosso caminho pela frente
era longo e, depois de comprar artesanatos de locais, forramos o estomago com
uma última refeição do sertão. Pastel de jaca e palma, um com gosto de frango, o
outro salsinha. Horas de estrada nos separavam do destino final, nosso caminho
era o litoral sentido sul, Itacaré.
Depois de muitos caminhões, buracos e um trajeto final sinistro cruzando a costa do Dendê, enfim chegamos. Foram quase 12 horas e mais de 600 km. O corpo cansado da estrada e a mente percebendo a irônica diferença entre o pacato e o agito, o passado e o futuro. Itacaré já se mostrou outra cara, tinha vida noturna, malandragem de rua e serviços turísticos. Sem dúvidas que outro tipo de viagem nos aguardava. Por hora nos restava saudades do que recém foi vivido e planos em meio a felicidade da vida pronta da costa.
Dormimos sentindo o cheiro do mar.
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| Brejo, Igatu |
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Resquícios do Garimpo
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