Um pedaço do coração no Capão
Dia amanheceu com uma garoa fina, agua borrifada no ar, encharcando as folhas e deixando gotículas nas
mangas do jardim como se tivessem sido suavemente lavadas.
Os passarinhos faziam barulho e pousavam na aroeira, nos encarando,
esperando pela banana do café da manhã. Metade era pra galinha do mato, a
primeira a comer, rainha do lugar. E na janela do quarto, o sabiá continuava
com seu ritual de bicadas e mais bicadas no vidro, comecei a desconfiar das
razões daquela lunática atividade, não era comida. O certo era que uma hora a
física iria se mostrar à logica, o vidro se quebraria, não foi com a gente.
Café do Capão, forte, encorpado, gosto de lenha queimada. Hoje teve
também suco de milho adoçado com mel silvestre das flores que apontavam
naqueles ares. E como se estivesse esperando pelo nosso desjejum, o tempo em
seguida se abriu, as nuvens foram se dissipando, evaporando graças ao calor
seco que vinha do sertão.
Passeio por um melancólico domingo na vila, casas e lojas harmonizam com
a natureza, o sustentável anda junto com as necessidades contemporâneas. O
criativo geralmente vence o materialismo moderno, já percebeu que algo feito a
mão tem mais valor do que o produzido por uma máquina? Poucos lugares estavam
abertos. Um bar, uma pizzaria, a hamburgueria, outra pizzaria e mais um bar. Um
vilarejo em quarentena, não muito diferente do que seria se estivéssemos em
“tempos normais”, em ritmo retardado, antiquado e bucólico. O verdadeiro
normal.
Quando planejamos visitar um lugar numa viagem e não conseguimos, seria
essa uma decepção ou uma razão para a volta? O por do Sol no Morro do Pai
Inácio tinha sido idealizado, desde o começo, mas não conseguimos fazer porque
o Parque estava fechado devido a pandemia de 2020. Deixamos ali uma semente da
vontade plantada, florescendo voltamos para colher os frutos da realização.
Dessa vez a semente foi jogada da janela do carro, no retrovisor o sol ia
apontando no horizonte e pintando os paredões das montanhas da Chapada, laranja
avermelhado, ou próximo a isso, uma mistura de elementos faz com que sua
coloração dependa do exato momento de tempo. Cada por do sol por lá será
diferente, único, novas e últimas cores a cada despedida do astro.
Não dá para vir na Diamantina e não se arriscar em algum caminho na
esperança de encontrar algo novo. Entramos por uma estrada de calcário que
surgiu logo após uma curva, saída da Br na volta do Morro do Pai Inácio, era
própria para veículos com tração, por isso o trajeto foi a pé por caminhos de
pedras e córregos formados pela agua da chuva que caíra durante a noite.
Encontramos uma pedreira ainda utilizada clandestinamente para construções na
região, seguindo reto ia dar em algo, mas fomos vencidos pelos mosquitos que
nos devoravam vivos, voltamos.
Pensamentos correm soltos. Silêncio. Grilos. Agua. Noite. Domingo. Serenidade. Anseio. Tempo. Parar. A materialização de um momento. Foi vivido e arquivado na memória. Que o tempo possa permitir as lembranças do lugar permanecerem vivas, mesmo que as imagens aos poucos vão se apagando, que as sensações prevaleçam.
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| Vila do Capão |
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| Vila do Capão |
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| Almoço de Domingo, PF de Carne de Sol |







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