O
diabo, o morro e o silêncio
Dia de despedida de Lençóis,
nascimento do sol com ar nostálgico. Malas prontas e uma saída sem olhar o
retrovisor, deixando para trás mais uma marca no tempo e um pedaço de nós em
uma cidade tão aconchegante, suas ruas de pedra, suas casas coloridas e seus
10000 habitantes seguindo suas vidas, assim como a gente agora seguia a nossa.
Br 242, sentido norte,
Barraca do Louro, souvenir, beira de estrada e entrada pro Poço do Diabo. Taxa
de R$20 para entrar, em troca estrutura de sinalização, preservação, manutenção
da trilha e um sazonal guarda vidas.
Dentre as peripécias do
caminho uma ponte natural formada sob uma pedra, margear a corredeira d’agua
que guarda buracos escuros semi perigosos, além das infinitas possibilidades da
constância aquática. Somos colocados em um cenário que lembra a lua, pedras
polidas pela agua e tempo, nas cores rosas, brancas e calcário. Liquido espumoso cor de
vinho. Nos sentíamos formigas em enormes fontes, expostos em uma vitrine e sendo
observados por seres de outra dimensão.
Toda aquela força infinita
de agua corrente escorria por vales longe do alcance dos olhos, driblando pelo
caminho diversos paredões milenares que corriam em meio ao interior baiano,
aguas que venciam o agreste e banhava a mata atlântica, cenário multifacetado
raro, riqueza da pátria. Uma bomba subterrânea jorrando agua, necessidade de
fuga por todos possíveis orifícios da terra, proporcionando em um mesmo campo
de visão quedas d’agua que surgiam de diferentes ângulos e caminhos, visão
tridimensional.
Seguimos, parte de nós ficou,
aquela que não queria ir embora, deixamos lá, um dia quem sabe voltamos pra
buscar. Estamos de volta na estrada sinuosa que corta os morros descendentes do
jurássico, caminho para o Vale do Capão, um braço que é continuação de
Palmeiras, por uma estrada de chão batido, pedaço ainda não tocado pela
massificação do turismo, aqui as pessoas nos olhavam com olhar curioso de quem
ficou tempos sem ver viajantes, sintomas da pandemia, na barreira sanitária nos
perguntaram de onde viemos e para onde íamos. Se Lençóis é o coração, o Capão é
o pulmão. A vida nasce de todos os cantos através da lente verde da natureza.
Plantas dos mais variados tipos, flores mais coloridas e a grama evidentemente mais
verde.
Conhecemos o Nito, anfitrião
da nossa hospedagem, nos recebeu em sua casa que foi construída por ele e seu
pai. Podíamos sentir a essência dos laços de pai e filho nos detalhes da construção,
peças foram encaixadas em um álibi sustentável. Um tronco aqui, outro ali
servindo como porta toalha, aquele com curva para escorar a porta e cristais,
nas janelas, no rejunte, no chão, no teto, decoram e formam um ciclo energético
no lugar.
Nito é nativo do Capão, guia
turístico, competidor de Montain Bike, compartilhou histórias da montanha,
guarda respeito pelo lugar. Perguntei qual a magia da Chapada. “Eu comecei a
reparar essa energia que vocês falam quando os turistas vieram. Pra mim sempre
foi sobrevivência, hoje nem bicho eu mato”. Mas a magia esteve sempre ali, não
só no lugar, mas em pessoas como ele, acostumados com aquela realidade paralela,
sobrevivendo, sobre viver, muito a ensinar.
Uma noite de silêncio pela frente. Grilos cantavam, vaga lumes dançavam sob a mangueira, entorpecidos pelo aroma doce das mangas que cresciam a cada nova manhã de primavera. Amanha era mais uma. Por hoje, uma noite de silêncio.
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