segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 12- Itacarezinho


O sono de mar

Maresia trás tranquilidade com pitadas de marasmo, vida praiana. Os dias são mais preguiçosos e lentos. Segundos pulando, sem olhar o relógio, deixando apenas correr lentamente, fomos para Itacarezinho, praia de maior extensão na região, ironia do nome. Graças ao seu tamanho e a ladeira do acesso encontramos poucos turistas por lá, fomos recepcionados por hibiscos e outras flores. Um caminhar solitário e silencioso na praia de areia branca, fina, parecida com sal, aonde folhas de coqueiros balançavam com o vento e faziam sombras cinza no chão. As ondas quebravam no mesmo ritmo dos nossos passos, águas em nuance turquesa e anil ditavam os tons do ambiente semidesértico com poucos momentos de contato com o mundo e pessoas.

O clima favoreceu o ócio criativo, pela terceira vez na vida me arrisquei abrir um coco seco. Fácil começar, difícil de terminar. Se tivermos a opção de escolher dificilmente encaramos a árdua tarefa de descascar toda fibra da casca seca e dura para desfrutar da popa. Hoje virou uma atividade que triunfa momentos raros em lugares incríveis, a primeira vez foi no Havaí, segunda em Ubatuba, e agora Itacaré. Manter o nível para as próximas é expectativa aguardada.

Uma última dose, no sentido literal. Encontrada perto de onde estávamos uma velha garrafa de cachaça repousava na areia, a deriva por anos, com a força dos mares veio atracar por ali. Mariscos criaram uma cultura nas paredes do vidro e já apodreciam com a força do sol e distância da agua. Dentro da garrafa um resquício do líquido que entreteve quem consumiu, agora consumia meus pensamentos, pensei por hora nas histórias que passaram por ali, será que foram felizes ou tristes, em grupo ou solitária. Reflexões que antecederam o cochilo que surgiu em meio ao silêncio e brisa baiana.

Terminamos a noite jantando no Marley’s, um restaurante com pratos contemporâneos de culinária internacional. Optamos pelo mignon com molho thai e arroz de jasmim. O outro prato foi um risoto de gorgonzola. Ambos comuns, nada que despertasse, deixando a desejar pelo custo benefício, mas compensado pelo ambiente, funcionários e o dono, um simpático belga. Mais um entre tantos gringos que largam o conforto de suas vidas nos países desenvolvidos para viverem a atmosfera cool e relax por aqui.

Enquanto vamos chegando à reta final da viagem o sentimento é cada vez mais de parar o tempo, de querer que cada momento tenha sua singularidade, que cada minuto seja uma vivência. Percebo que o avançar acentua o sentimentalismo para o coração e principalmente pra ponta do lápis.


Entrada para praia de Itacarezinho

Recepção de Flores

Recepção de Flores

Entretenimento na Areia
Uma dose de lembrança

Mignon ao molho thai do Marley's


terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 11 - Itacanésia



Itacanésia

Décimo primeiro dia de viagem, nessa altura já nos acostumamos com essa rotina de vida fácil, na qual as preocupações não são de fato preocupações e consistem em decisões de como aproveitar o dia ou onde comer. Hoje fomos conhecer algumas praias de Itacaré que ficam fora da cidade, obvio-popularmente conhecidas como “praias de fora”. Seguindo pela rodovia Ba-001 há alguns quilômetros do centro, fomos direto para a Praia da Engenhoca. O caminho depois de deixar o carro na beira da estrada é marcado por uma rápida trilha que cruza uma floresta ancestral. Jaqueiras gigantes, altas palmeiras e muitos tons de verde. Árvores centenárias se destacavam das demais e reinavam naquele território, nos assistiam assim como já assistiram muitas passagens e civilizações.

A geografia do lugar se assemelha muito com os ambientes encontrados em Bali, na Indonésia. Praias semidesérticas, pequenas baias, costa de rochas pretas, irregulares e pontiagudas formadas por atividade vulcânica. Seguimos nosso caminho pela trilha até a praia ao lado, Havaizinho, com ondas tranquilas mas presentes e areia branca misturando tons de preto como se fosse um sorvete de flocos derretido. Na tarde, um cochilo na canga esticada no chão levou a mente em meio a brisa quente oceânica uivando nos ouvidos junto com o grave do barulho das ondas quebrando, que complementaram a sinfonia do natural.

Olhos abrindo aos poucos, corpo relaxado, a Bahia é mística e em momentos como esse percebemos a espécie de viagem astral que somos levados. O sol se punha ao fundo, apontando na montanha, cortado por coqueiros que vinham na frente da mata atlântica. Aliás, diferente de todas as praias da Bahia a região aqui é marcada pela harmonia do mar e a floresta, fazendo jus a história de exploração da Costa do Cacau, que no geral manteve a mata atlântica preservada para que o fruto crescesse na sombra húmida das outras árvores. Os raios do sol foram ficando em tons cada vez mais alaranjados, avisando que era hora de partir.

Itacanésia, analogia de Itacaré com Indonésia. Além das praias, as irregulares vielas, becos e sujeiras pelas ruas te levam para Kuta em Bali. Para quem já esteve nos dois lugares se colocou no outro em algum momento, uma leve confusão ou flash na memória pelas grandes semelhanças.

A noite na Pituba já se tornou aguardada, com sua variada opções de restaurantes e agito. O ano recluso trouxe sintomas de exclusão social em meio a vontade de imersão social, e recebemos a nossa dose por aqui. O jantar foi no Manga Rosa, restaurante a la carte de estilo tropical brasileiro e variada opções de pratos de frutos do mar. Entre camarões ao gengibre com mel e arroz de açaí, saímos satisfeitos. A música brindou o final do dia, que teve um pouco de tudo: sol, descanso, notas musicais e Yasmim – caipirinha frozen de morango e limão siciliano oferecida no Smash Bar.

Seria pedir muito viver como se estivéssemos de férias todos os dias? Com direito a descanso, prazeres e descobertas? Ou será que imaginar isso é viver uma realidade utópica? Entre perguntas não respondidas seguimos para reta final, muita coisa já ficou pra trás, mas também momentos ainda estão pela frente, muitos. Seguimos.

Pituba

Floresta Ancestral
Cacau, combustível na trilha.
Itacanésia
Caminho da Engenhoca para o Havaizinho
Havaizinho

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Diário de viagem - Dia 10 - Conhecendo Itacaré


Do parado ao movimento.

Hoje iniciamos nossa rotina praiana, o cheiro de mar – uma mistura de sal com vapor no ar – é inconfundível. A vida ao nível baixo da praia nos deixa mais lento e propenso a ficar parado, curtindo a perfeição do momento e a estabilidade do não se locomover por hora.

Estamos de volta também à vida confortável, padronizada e previsível de se hospedar em uma pousada. Dentre tantas opções, Burundanga foi a escolha para nossa passagem na cidade. Com uma vasta área verde em meio uma coleção de esculturas e obras de arte, quartos espaçosos e com varandas privativas, tinha o que procurávamos. Além, claro, do café da manhã, uma espécie de luxo matinal, nos remetendo a vida de um rei com seus banquetes de desjejum, boa maneira de começar o dia.

Devido à longa viagem dentro do carro no dia anterior, fomos enraizados na vontade de gastar os chinelos, caminhando pelos arredores, deixando qualquer tipo de veículo automotor ausente e se locomovendo somente com as pernas e ao alcance daquilo que elas pudessem chegar. Por isso nossa escolha de passeio foram as praias urbanas de Itacaré. Resende, Tiririca, Praia do Costa e Praia do Ribeira. Todas acessíveis a pé e muito semelhantes em ambientes que são divididos por encostas rochosas de pedras pretas vulcânicas, mar agitado, areia grossa em tom amarelo escuro, coqueiros espalhados pela praia, certa presença de sujeira humana e barracas de praia. Se você é do tipo que gosta de estrutura, ondas, certo tipo de aglomeração e não se importa com vendedores ambulantes aparecerem com frequência, vai se encontrar por lá.

O cenário de coqueiros e praias nos coloca diante daquilo que um dia imaginamos como um dia ideal, e isso agrada. Porém é perceptível o quão moldado o turismo aqui se encontra, uma cidade que vive praticamente da renda gerada por turistas e com isso todos por aqui tentam seu lugar ao sol de alguma forma te oferecendo algo. Isso força e industrializa os serviços, turismo em versão enlatado que tudo já parece estar pronto. A padronização te trás por um lado conforto, antes de você imaginar já está ali, mas por outro trata o viajante como uma espécie uniforme. Ainda sou fã de lugares que individualizam os visitantes, que correm a margem do que é massificado, lugares cada vez mais raros e ofuscados pela demanda humana, que age em muitos momentos como meras ovelhas.

O que de fato é um brilho e particularidade dessa região da costa do cacau brasileiro é o agito noturno, ponto especial para a Pituba, movimentada rua do centro aonde as lojas de artesanato e restaurantes acompanham o ritmo das pessoas e ficam abertas até mais tarde. Bem diferente da Chapada, que adormecia no crepúsculo junto com suas opções. A noite foi regada por caipirinha de cacau, capeta, música de qualidade e boas risadas.

Os contrastes nos permitem e marcam as diferenças. O primeiro dia da mudança do interior para o litoral nos levou do silêncio ao barulho, do campo para as ondas, da solidão para o encontro. Equilíbrio justo e predominante para continuar coroando essa incrível experiência. Amanhã seguimos, por hora, a noite segue com lápis na mão e a mente rodopiante pós Smash Bar.


Cenários tropicais

Praia da Ribeira
Praia urbana de Itacaré
Fachada da Pousada Burundanga
Caipirinha de Cacau & Capeta


quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 9 - Últimos momentos na Chapada & Chegada em Itacaré



Do interior para o litoral

Chuva ao amanhecer, trazendo a cor imparcial do cinza, a mesma que resumia o sentimento ao partir, triste por ir, feliz por ter conhecido. Aquilo que um dia foi sonhado se realizou, para então deixar lugar para recordações. Daqui pra frente continuidade e saudades das histórias de um lugar que agora se torna parte das nossas histórias. Lembranças de paisagens cênicas, plantas nativas, flores de novembro, aroma cítrico adocicado no ar, sons dos pássaros, sorriso das pessoas... São tantas as riquezas, muito além das geradas pelos diamantes, falo das verdadeiras joias do Brasil: Seu povo, sua fauna e flora.

Antes de seguir estrada tivemos tempo de conhecer o Brejo, um antigo garimpo, que data de 300 anos de exploração, tendo sido proibido em meados de 70. O local é uma gruna, formada pela mão humana, túneis com quilômetros de extensão são frutos da extração de toneladas de pedras que traziam em suas ranhuras muitos diamantes que iam para o bolso de coronéis exploradores. O povo que trabalhou por anos no regime de escravidão ou próximo a isso mantém até hoje suas batalhas diárias e rancores do milicianismo que trouxe exploração e sofrimento. Com uma lanterna na mão, somos guiados por descendentes dos mineradores por metros dentro da terra, o clima é abafado, a sensação claustrofóbica e de insegurança é constante. O cheiro no ar é de ferro e o único barulho que se escuta são de morcegos e gotas que escorrem das rochas. Chegamos numa enorme câmara formada por pedra entalhada, lá o guia acende dezenas de velas em homenagem aos garimpeiros que morreram ali, uma para cada, iluminando o ambiente em tom vermelho além das pobres almas.

Nosso caminho pela frente era longo e, depois de comprar artesanatos de locais, forramos o estomago com uma última refeição do sertão. Pastel de jaca e palma, um com gosto de frango, o outro salsinha. Horas de estrada nos separavam do destino final, nosso caminho era o litoral sentido sul, Itacaré.

Depois de muitos caminhões, buracos e um trajeto final sinistro cruzando a costa do Dendê, enfim chegamos. Foram quase 12 horas e mais de 600 km. O corpo cansado da estrada e a mente percebendo a irônica diferença entre o pacato e o agito, o passado e o futuro. Itacaré já se mostrou outra cara, tinha vida noturna, malandragem de rua e serviços turísticos. Sem dúvidas que outro tipo de viagem nos aguardava. Por hora nos restava saudades do que recém foi vivido e planos em meio a felicidade da vida pronta da costa.

Dormimos sentindo o cheiro do mar.

Brejo, Igatu

Montanha oca
Resquícios do Garimpo
Entrada da Gruna
Despedida de Igatu

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 8 - Chapada Diamantina - Igatu & Cachoeira da Califórnia


Um sonho acordado

Café quente na boca, adoçado com mel regional, observando o vale a frente nos intervalos de cada gole. Pensamentos se voltavam para a corredeira e quedas formadas pelo rio Laranjeira. A agua que descia era da mesma cor do café - espumosa e do tipo expresso - que viajavam quilômetros em meio a uma linda paisagem, lavando as pedras, trazendo toda matéria orgânica e energia pelo caminho. Raiava o último dia completo por aquela região, encerrando nossa passagem em 2020 na Diamantina.

Fomos atrás de LP, indicação do Nito do Capão, não foi difícil, aqui todos se conhecem, a primeira pessoa abordada na rua te leva para quem está procurando. LP nos indicou o guia Nem, nativo da região, contador de histórias, apreciador vívido das trilhas, trekkings e montanhismo. Não troca Igatu por nada. Nos guiou para a Cachoeira da California, um trajeto cheio de adrenalina, que incluía atravessar uma forte corredeira com risco quase iminente de morte em caso de um leve escorregão pelas suas pedras lisas e polidas. Passamos pelo caminho dos antigos tropeiros que ali cruzavam no passado, além de vilarejos abandonados junto com o garimpo, deixando ruas e casas de pedras ao relento, visão fantasmagórica. Aliás, as pedras estão presentes em todos os lugares, formam morros e construções, é parte da identidade de Igatu, não a toa conhecida como Machu Pichu Baiana. Voltando a trilha, mais obstáculos foram escalados para enfim chegarmos à esperada queda. Diferente de todas as outras, as aguas surgiam por dentro de uma gruta, descendo ferozmente em pancadas sobre uma lajota que resistia aquela surra hídrica. Como é incrível a sensação da agua gelada em contraste com o calor libertado pelo nosso corpo depois de uma caminhada pelos ares húmidos de lá, ficou guardado.

O dia ainda reservou conhecer a Cachoeira do Córrego do Meio que é próxima a vila. Também muita comida boa, famoso tempero caseiro, especiarias da região, culinária típica feita pelas mãos abençoadas de velhas cozinheiras que dispunham de experiência e improvisação que o passado exigiu. Restaurante Chic Chic da Lourdes, suco de manga, mangaba e PF de frango com farofa de soja. À noite fomos ao restaurante e bar do Néu, produtor de cachaça artesanal com frutas das redondezas, provamos a de pitanga, acompanhada de carne de sol, purê de aipim e conversa. Falamos das lendas das montanhas, o poder medicinal das plantas que cresciam por ali e as luzes que vez ou outra apareciam misteriosamente no céu.

Ouvindo uma leve chuva gotejar nas rochas, o barulho do vento que corre o vale e a trilha sonora dos animais noturnos, refletimos sobre os últimos 8 dias que passamos por essa região. Quando a vida é uma novidade os dias se tornam mais longos, as descobertas surgem a cada instante e viver é uma prática única e exclusivamente prazerosa. Ainda temos alguns momentos antes de partir, por hora não desejamos ser acordados de um sonho vívido. Que ele prossiga.


Vista do Café da Manhã - Rio Laranjeira
Cachoeira do Córrego do Meio

Antiga vila de garimpeiros
Gastronomia rica
Restaurantes Chic Chic da Lourdes
Travessia arriscada

Cachoeira da Califórnia
Um fim de tarde na memória

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 7 - Chapada Diamantina - Cachoeira da Fumaça e Chegada em Igatu


Opulência natural e o charme do interior

Foi difícil deixar pra trás o Vale do Capão, sair da casa do Nito, a vontade era continuar olhando para cada detalhe, guardando tudo no HD interno, memorizando as belezas ocultas em cada vírgula daquele lugar.

Mas nosso tempo havia chegado e precisávamos seguir caminho, hoje arriscaríamos ir para a Cachoeira da Fumaça, segunda maior do Brasil com 300 metros de altura. A trilha de 6 km e 4 horas de duração era um desafio para o relógio, já que nosso dia deveria terminar em Igatu, no Sul da Chapada. Valeria a pena, com certeza, estávamos em busca da sensação de grandiosidade do mundo, sol na cabeça, bota fazendo barulho de cascalho pisado, vales, penhascos, altura e vento na cabeça. Queríamos ir mais fundo do que já tínhamos ido nesses sentimentos tão propícios e dignos do lugar e sabíamos que encontraríamos isso nessa trilha.

Expectativas superadas! O trajeto é modesto entre subidas e descidas, lindas vistas, obstáculos sensitivos por água corrente, pontes e o trunfo no final. A cachoeira tem esse nome porque suas aguas, graças aos ventos fortes que sopram do vale, vencem a gravidade e sobem no sentido contrário da queda, como se preferindo o céu ao impacto do chão. Vapor sendo jorrado no ar, efeito fumaça, brindando uma paisagem incrível, completamente natural, sem intervenção humana, apenas um ambiente formado por corredeiras d’agua que rasgaram a terra formando desfiladeiros e há milênios banhou aquele lugar.

Na metade do dia seguimos nosso caminho para Igatu, um município de Andaraí, famoso na época dos diamantes que foram encontrados aos montes por aqui em meados do século 19. Saindo da Br percorremos um caminho de 7 km por uma estrada irregular feita com blocos tirados dali, cruzando morros sob rochas, o sol se despedia aos fundos, entrávamos em um portal do tempo. Tudo parece ter sido mantido como foi. O garimpo foi largado as pressas, coisas e assuntos deixados inacabados e as pedras que formam casas, ruas e estradas esculpem o lugar garantindo a sensação de estar imerso num ambiente medieval. Uma população de pouco mais de 300 pessoas, idosos em sua maioria, te olham curiosos de suas casas coloridas de janelas e portas rústicas, foi no crepúsculo que o charmoso vilarejo nos recebeu.

Nossa hospedagem aqui era a mais esperada, a “Casa das Nuvens”. Situada no alto do morro, uma encosta de quase 30 metros e vista aos fundos da pequena cidade que escurecia aos nossos olhos. Entre rasantes de águias e gaviões, surge uma engenhosidade arquitetônica que cresce no meio de orifícios nas pedras, misto de caverna com lar. Você está nas pedras, mas também em uma casa. Dormir sob uma enorme pedra há poucos centímetros de você, tomar banho de frente pra uma enorme janela de vidro com visão panorâmica do Rio, o constante e potente barulho de agua corrente. A sensação de desbrava-la pela primeira vez é digna de um parque temático, abrindo suas portas, descobrindo cômodos, se surpreendendo com novos espaços a cada curva e observar o inesperado que corre dos padrões.

Coroando o início de uma noite mágica, de trilha fomos até o vilarejo. Tudo lento, compramos ovos e leite em um bar retrô, dentro uma conversa sobre futebol, pra quebrar o gelo uma dose da cachaça do lugar, todos preservam a sua versão clássica, essa forte e de gosto pouco adocicado de pitanga. Mais alguns passos e um jantar cheio de identidade e sabor no Restaurante Flor de Mandacaru, aonde te servem em mesas irregulares de madeira a comida com gosto de família, preparada na cozinha de casa.

Segunda feira que vai chegando ao fim, cidade indo dormir cedo, a noite tem seus encantos, mas a joia do lugar é na luz clara, charme do interior.

Inicio da subida - Trilha Fumaça.

Trilha da Fumaça.
Trilha da Fumaça.
Trilha da Fumaça.
Casa da Nuvens, Igatu.
Estrada para Igatu.
Entrada para Casa da Nuvens, Igatu.

Vila de Igatu
Vila de Igatu


domingo, 13 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 6 - Chapada Diamantina - Morro do Pai Inácio e Vila do Capão


Um pedaço do coração no Capão

Dia amanheceu com uma garoa fina, agua borrifada no ar, encharcando as folhas e deixando gotículas nas mangas do jardim como se tivessem sido suavemente lavadas.

Os passarinhos faziam barulho e pousavam na aroeira, nos encarando, esperando pela banana do café da manhã. Metade era pra galinha do mato, a primeira a comer, rainha do lugar. E na janela do quarto, o sabiá continuava com seu ritual de bicadas e mais bicadas no vidro, comecei a desconfiar das razões daquela lunática atividade, não era comida. O certo era que uma hora a física iria se mostrar à logica, o vidro se quebraria, não foi com a gente.

Café do Capão, forte, encorpado, gosto de lenha queimada. Hoje teve também suco de milho adoçado com mel silvestre das flores que apontavam naqueles ares. E como se estivesse esperando pelo nosso desjejum, o tempo em seguida se abriu, as nuvens foram se dissipando, evaporando graças ao calor seco que vinha do sertão.

Passeio por um melancólico domingo na vila, casas e lojas harmonizam com a natureza, o sustentável anda junto com as necessidades contemporâneas. O criativo geralmente vence o materialismo moderno, já percebeu que algo feito a mão tem mais valor do que o produzido por uma máquina? Poucos lugares estavam abertos. Um bar, uma pizzaria, a hamburgueria, outra pizzaria e mais um bar. Um vilarejo em quarentena, não muito diferente do que seria se estivéssemos em “tempos normais”, em ritmo retardado, antiquado e bucólico. O verdadeiro normal. 

Quando planejamos visitar um lugar numa viagem e não conseguimos, seria essa uma decepção ou uma razão para a volta? O por do Sol no Morro do Pai Inácio tinha sido idealizado, desde o começo, mas não conseguimos fazer porque o Parque estava fechado devido a pandemia de 2020. Deixamos ali uma semente da vontade plantada, florescendo voltamos para colher os frutos da realização. Dessa vez a semente foi jogada da janela do carro, no retrovisor o sol ia apontando no horizonte e pintando os paredões das montanhas da Chapada, laranja avermelhado, ou próximo a isso, uma mistura de elementos faz com que sua coloração dependa do exato momento de tempo. Cada por do sol por lá será diferente, único, novas e últimas cores a cada despedida do astro.

Não dá para vir na Diamantina e não se arriscar em algum caminho na esperança de encontrar algo novo. Entramos por uma estrada de calcário que surgiu logo após uma curva, saída da Br na volta do Morro do Pai Inácio, era própria para veículos com tração, por isso o trajeto foi a pé por caminhos de pedras e córregos formados pela agua da chuva que caíra durante a noite. Encontramos uma pedreira ainda utilizada clandestinamente para construções na região, seguindo reto ia dar em algo, mas fomos vencidos pelos mosquitos que nos devoravam vivos, voltamos.

Pensamentos correm soltos. Silêncio. Grilos. Agua. Noite. Domingo. Serenidade. Anseio. Tempo. Parar. A materialização de um momento. Foi vivido e arquivado na memória. Que o tempo possa permitir as lembranças do lugar permanecerem vivas, mesmo que as imagens aos poucos vão se apagando, que as sensações prevaleçam.

Vila do Capão

Vila do Capão

Vila do Capão

Almoço de Domingo, PF de Carne de Sol
Desbravando a Chapada
Tarde nas montanhas