Opulência natural e o charme do interior
Foi difícil deixar pra trás o Vale do Capão, sair da casa do Nito, a
vontade era continuar olhando para cada detalhe, guardando tudo no HD interno,
memorizando as belezas ocultas em cada vírgula daquele lugar.
Mas nosso tempo havia chegado e precisávamos seguir caminho, hoje arriscaríamos ir para a Cachoeira da Fumaça, segunda maior do Brasil com 300 metros de altura. A trilha de 6 km e 4 horas de duração era um desafio para o relógio, já que nosso dia deveria terminar em Igatu, no Sul da Chapada. Valeria a pena, com certeza, estávamos em busca da sensação de grandiosidade do mundo, sol na cabeça, bota fazendo barulho de cascalho pisado, vales, penhascos, altura e vento na cabeça. Queríamos ir mais fundo do que já tínhamos ido nesses sentimentos tão propícios e dignos do lugar e sabíamos que encontraríamos isso nessa trilha.
Expectativas superadas! O trajeto é modesto entre subidas e descidas,
lindas vistas, obstáculos sensitivos por água corrente, pontes e o trunfo no
final. A cachoeira tem esse nome porque suas aguas, graças aos ventos fortes
que sopram do vale, vencem a gravidade e sobem no sentido contrário da queda,
como se preferindo o céu ao impacto do chão. Vapor sendo jorrado no ar, efeito
fumaça, brindando uma paisagem incrível, completamente natural, sem intervenção
humana, apenas um ambiente formado por corredeiras d’agua que rasgaram a terra
formando desfiladeiros e há milênios banhou aquele lugar.
Na metade do dia seguimos nosso caminho para Igatu, um município de
Andaraí, famoso na época dos diamantes que foram encontrados aos montes por
aqui em meados do século 19. Saindo da Br percorremos um caminho de 7 km por
uma estrada irregular feita com blocos tirados dali, cruzando morros sob rochas,
o sol se despedia aos fundos, entrávamos em um portal do tempo. Tudo parece ter
sido mantido como foi. O garimpo foi largado as pressas, coisas e
assuntos deixados inacabados e as pedras que formam casas, ruas e estradas
esculpem o lugar garantindo a sensação de estar imerso num ambiente medieval.
Uma população de pouco mais de 300 pessoas, idosos em sua maioria, te olham
curiosos de suas casas coloridas de janelas e portas rústicas, foi no
crepúsculo que o charmoso vilarejo nos recebeu.
Nossa hospedagem aqui era a mais esperada, a “Casa das Nuvens”. Situada
no alto do morro, uma encosta de quase 30 metros e vista aos fundos da pequena
cidade que escurecia aos nossos olhos. Entre rasantes de águias e gaviões,
surge uma engenhosidade arquitetônica que cresce no meio de orifícios nas
pedras, misto de caverna com lar. Você está nas pedras, mas também em uma casa.
Dormir sob uma enorme pedra há poucos centímetros de você, tomar banho de
frente pra uma enorme janela de vidro com visão panorâmica do Rio, o
constante e potente barulho de agua corrente. A sensação de desbrava-la pela
primeira vez é digna de um parque temático, abrindo suas portas, descobrindo
cômodos, se surpreendendo com novos espaços a cada curva e observar o
inesperado que corre dos padrões.
Coroando o início de uma noite mágica, de trilha fomos até o vilarejo.
Tudo lento, compramos ovos e leite em um bar retrô, dentro uma conversa sobre
futebol, pra quebrar o gelo uma dose da cachaça do lugar, todos preservam a sua
versão clássica, essa forte e de gosto pouco adocicado de pitanga. Mais alguns
passos e um jantar cheio de identidade e sabor no Restaurante Flor de
Mandacaru, aonde te servem em mesas irregulares de madeira a comida com gosto
de família, preparada na cozinha de casa.
Segunda feira que vai chegando ao fim, cidade indo dormir cedo, a noite tem seus encantos, mas a joia do lugar é na luz clara, charme do interior.
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| Inicio da subida - Trilha Fumaça. |
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| Trilha da Fumaça. |
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| Estrada para Igatu. |
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| Entrada para Casa da Nuvens, Igatu. |
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| Vila de Igatu |










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