segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 7 - Chapada Diamantina - Cachoeira da Fumaça e Chegada em Igatu


Opulência natural e o charme do interior

Foi difícil deixar pra trás o Vale do Capão, sair da casa do Nito, a vontade era continuar olhando para cada detalhe, guardando tudo no HD interno, memorizando as belezas ocultas em cada vírgula daquele lugar.

Mas nosso tempo havia chegado e precisávamos seguir caminho, hoje arriscaríamos ir para a Cachoeira da Fumaça, segunda maior do Brasil com 300 metros de altura. A trilha de 6 km e 4 horas de duração era um desafio para o relógio, já que nosso dia deveria terminar em Igatu, no Sul da Chapada. Valeria a pena, com certeza, estávamos em busca da sensação de grandiosidade do mundo, sol na cabeça, bota fazendo barulho de cascalho pisado, vales, penhascos, altura e vento na cabeça. Queríamos ir mais fundo do que já tínhamos ido nesses sentimentos tão propícios e dignos do lugar e sabíamos que encontraríamos isso nessa trilha.

Expectativas superadas! O trajeto é modesto entre subidas e descidas, lindas vistas, obstáculos sensitivos por água corrente, pontes e o trunfo no final. A cachoeira tem esse nome porque suas aguas, graças aos ventos fortes que sopram do vale, vencem a gravidade e sobem no sentido contrário da queda, como se preferindo o céu ao impacto do chão. Vapor sendo jorrado no ar, efeito fumaça, brindando uma paisagem incrível, completamente natural, sem intervenção humana, apenas um ambiente formado por corredeiras d’agua que rasgaram a terra formando desfiladeiros e há milênios banhou aquele lugar.

Na metade do dia seguimos nosso caminho para Igatu, um município de Andaraí, famoso na época dos diamantes que foram encontrados aos montes por aqui em meados do século 19. Saindo da Br percorremos um caminho de 7 km por uma estrada irregular feita com blocos tirados dali, cruzando morros sob rochas, o sol se despedia aos fundos, entrávamos em um portal do tempo. Tudo parece ter sido mantido como foi. O garimpo foi largado as pressas, coisas e assuntos deixados inacabados e as pedras que formam casas, ruas e estradas esculpem o lugar garantindo a sensação de estar imerso num ambiente medieval. Uma população de pouco mais de 300 pessoas, idosos em sua maioria, te olham curiosos de suas casas coloridas de janelas e portas rústicas, foi no crepúsculo que o charmoso vilarejo nos recebeu.

Nossa hospedagem aqui era a mais esperada, a “Casa das Nuvens”. Situada no alto do morro, uma encosta de quase 30 metros e vista aos fundos da pequena cidade que escurecia aos nossos olhos. Entre rasantes de águias e gaviões, surge uma engenhosidade arquitetônica que cresce no meio de orifícios nas pedras, misto de caverna com lar. Você está nas pedras, mas também em uma casa. Dormir sob uma enorme pedra há poucos centímetros de você, tomar banho de frente pra uma enorme janela de vidro com visão panorâmica do Rio, o constante e potente barulho de agua corrente. A sensação de desbrava-la pela primeira vez é digna de um parque temático, abrindo suas portas, descobrindo cômodos, se surpreendendo com novos espaços a cada curva e observar o inesperado que corre dos padrões.

Coroando o início de uma noite mágica, de trilha fomos até o vilarejo. Tudo lento, compramos ovos e leite em um bar retrô, dentro uma conversa sobre futebol, pra quebrar o gelo uma dose da cachaça do lugar, todos preservam a sua versão clássica, essa forte e de gosto pouco adocicado de pitanga. Mais alguns passos e um jantar cheio de identidade e sabor no Restaurante Flor de Mandacaru, aonde te servem em mesas irregulares de madeira a comida com gosto de família, preparada na cozinha de casa.

Segunda feira que vai chegando ao fim, cidade indo dormir cedo, a noite tem seus encantos, mas a joia do lugar é na luz clara, charme do interior.

Inicio da subida - Trilha Fumaça.

Trilha da Fumaça.
Trilha da Fumaça.
Trilha da Fumaça.
Casa da Nuvens, Igatu.
Estrada para Igatu.
Entrada para Casa da Nuvens, Igatu.

Vila de Igatu
Vila de Igatu


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