sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Diário de Viagem - Chegando em Caraíva - Dia 3



Devagar, mas perceptível.

Deixamos Arraial D´Ajuda, ficou ali. A igrejinha. Mucugê. Broduei. Sr. Ari da Pousada Aruanã. Pessoas indo e vindo. Nós, íamos. Por 2 horas de carro pela Br e grande parte em estrada de chão batido. Tudo que é bom geralmente vem acompanhado de um maior nível de dificuldade. Acontece por aqui também. Porto Seguro é a porta de entrada, do avião pra lá. Arraial tem a balsa, a fila, as lombadas. Trancoso é mais pra frente, melhorando. Caraíva é em diante. Pessoas vão ficando pelas opções, filtrando, aqui chega a poupa do suco batido e servido em copo com muito gelo em dia de sol. Doce como mel. Refrescante como uvalha. Do bom para o ótimo. Do 7 ao 10. Estamos em Caraíva!

A travessia é a guardiã, nos cumprimenta. Os barcos coloridos de madeira é o ingresso da passagem. Rio Caraíva nos alimenta, abre suas portas e em instantes estamos caminhando pelas ruas de areia fofa, um desafio para os que estão em débito com o preparo físico, mas que quebra o paradigma do habitual. Estar por aqui é ser alimentado de detalhes simplistas em um cenário luxuoso. Luxo em natureza harmoniosa com praia, mar e momentos que surgem a cada esquina, cada minuto, despertando a explicita necessidade de aproveita-los.

Caraíva é Jericoacoara do passado. É criança que cresce rápido aos olhos da mãe que não percebe o quão já está grande, mas ainda é aquela criança com os mesmos traços de antes. Traços de origem, de simplicidade. Gentileza no ar. Dinheiro vindo em segundo, não em primeiro. Turista com cara de viajante. Viajante com jeito de turista.

Dois passarinhos cinza se bicam na folha de uma árvore como cavaleiros com duas espadas. As ondas possuem diferentes ritmos em escala grave, consigo perceber 4 ou 5 sons diferentes, variam de acordo com a série e tamanho. As folhas entrelaçadas das palmeiras chacoalham com o vento, chiam e conversam entre elas. Tudo isso enquanto o sol aponta em ângulo cada vez mais e mais acentuado no horizonte aos fundos, rumo oeste, devagar, mas perceptível. Como Caraíva.

Devagar, mas perceptível.

Chegando em Caraíva

A travessia

Ruas de areia
Detalhes presentes
PF de Peixe Frito
Da sacada do nosso chalé
Igreja de São Sebastião
Presente de fim de tarde
A noite vem

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Diário de Viagem - Trancoso - Dia 2



Aquilo que não se copia é original

Bahia, a terra à vista. Descobrimento, a porta de entrada. São acontecimentos que fizeram e fazem o ar daqui ser misticamente denso. A história esta em tudo. Nas casas, nas pessoas, na natureza. Estar aqui é ser absorvido pelo passado e presente. Mistura de respeito e admiração. Viver é um presente, e não se esqueça de olhar pra trás, é isso que o lugar te diz.

Dia começou com um café da manhã especial, baseado no simples, avisava que o dia seria de sabor. Trancoso nos chamou, começando pela Praia dos Nativos, a chuva no inicio da manhã foi só a porta de entrada para a lua em forma de sol. O dia foi amarelo e quente. Sensação e cores que tão combinaram com o azul turquesa das mornas aguas do oceano, um banho de mar reenergizante, como um ligar na tomada dos sentidos e recarrega-los.

Trancoso é rústico com sofisticação. A dualidade de opostos provando que é possível. Aonde o criativo é original, e o original é cada vez mais valorizado em um mundo de copias, tendências e seguidores. Os beachs clubs da costa da praia te cobram altas consumações pelo conforto de desfrutar de um lugar ao sol, sob cadeiras de madeira e esteiras de palha. Se você está procurando por algo mais luxuoso encontrará, será regado com pratos requintados e uma experiência à frente. Claro que a praia é gratuita e o lugar é o mesmo, existem muitos cantos, paisagens e boas sombras “na faixa” por lá.

O quadrado de Trancoso é singular, pois praias belas existem em muitos lugares, mas tirando o atrativo natural em si poucos lugares carregam o orgulho de serem únicos. O jogo de cores das casas açorianas do início do descobrimento, árvores majestosas que nessa época estão floridas e perfumadas, pessoas descoladas pelas ruas. Em cada canto uma cena, uma pintura. Sim, singular. E a singularidade é igual ao original em proporções de ser algo raro para nós do mundo moderno, aonde as pessoas nas ruas agem como ovelhas, seguindo rebanhos.

É difícil copiar Trancoso. Momentos não são duplicados. Como esse agora, sentado em uma velha canoa azul anil aposentada, que hoje jaz sob um gramado rasteiro às sombras de uma bela árvore com flores laranja que descem dos galhos e dividem espaço com luminárias de madeiras em formato de bolas, como as bolas de uma árvore de Natal. Difícil copiar Trancoso.

Clube Awê Praia, Trancoso
Caldeirão de Frutos do Mar, Clube Awê, Trancoso
Quadrado, Trancoso
Quadrado, Trancoso
Quadrado, Trancoso
Quadrado, Trancoso
Árvore Centenária, Trancoso
Quadrado, Trancoso

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Diário de Viagem - Centro Histórico de Porto Seguro e Arraial D'Ajuda - Dia 1



O retorno ao início

Cada jornada propõe uma nova oportunidade de olhar as coisas sob outros ângulos e perspectivas. Detalhes sempre passam despercebidos até nos olhos mais treinados. Dessa vez meus companheiros de aventura são minha mãe e meu pai.

De São Paulo a Porto Seguro, um longo trajeto entre escalas e conexões, o novo normal de se viajar na pandemia. As aéreas estão se ajustando para evitar prejuízos. O ponto positivo foi o trecho em um avião turboélice da Azul, especificamente o ATR600 72 passageiros que acessam a aeronave por uma micro escada pouco habitual. No voo, me senti uma formiga pegando carona em um planador de papel, lembrando os velhos tempos de Flight Simulator, pra quem jogou nos anos 2000 vai entender melhor a sensação.

Já em Porto Seguro fomos direto para a Cidade Histórica, que fica nas proximidades. Palco de batalhas e encontros, o que no passado andou em guarda, hoje o tempo balanceou as tendências, fazendo o silêncio falar mais alto naquelas vielas e campos gramados em meio a construções históricas e ruinas. Casas que hoje são lojas de souvenirs e que um dia separavam classes com suas eiras e beiras, formam uma aquarela de cores, telas de pinturas que vemos por ai que retratam o colonialismo, agora diante dos olhos. Filas com fachadas azul, amarelo, verde. Cores do Brasil. Lugares assim me agradam, uma viagem ao passado que é ativada por essa ilusão ótica gerada quando enxergamos esses cenários históricos com pouca interferência a olho nu do mundo moderno.

 Caminhando pelos gramados verdes cor de abacate verde (abacate verde chega a ser pleonasmo, mas quando não maduro o verde é mais claro, confira), tive tempo de comprar do índio cascas de Dr. Imbira, sob defesa de ser uma planta medicinal pelo seu poder de cura e regeneração dos órgãos como o rim e o fígado. A julgar pelo gosto amargo - que me lembrou aqueles remédios horríveis de infância que nossos pais colocavam na nossa boca ligeiro sem perguntar - já fui convencido logo de início.

A Paróquia Nossa Senhora da Pena, a Igreja de São Benedito, aquela árvore linda. Todas mereceram a atenção dos nossos olhos que se perderam em detalhes por minutos. Além do Marco Zero, o acarajé da Neuza, dos sucos do Nelson e as cocadas da moça do lado. Lugares e pessoas que seguem o tempo e suas vidas, e uma quarta feira que seguia também.

Já chegando em Arraial D’Ajuda após a travessia de balsa tivemos um imprevisto com a nossa pousada, que havíamos reservado pela internet. Propaganda enganosa, efeito da foto, o mundo virtual trás isso. Quando saímos de casa rumo ao descobrimento e o desconhecido, por mais que é possível evitar percalços com muita pesquisa e planejamento, mas nunca estaremos blindados. Agir com normalidade, calma e ser flexível são atributos que devem ir na mala. Logo conseguimos outra opção de pousada, e transformamos esse momento em apenas uma vírgula no livro da nossa viagem.

Tínhamos pela frente o final de tarde no vilarejo de Arraial, que foi gasto com um caminhar nas suas ruas de paralelepípedo, gastando a sola e o tempo que corria despretensioso enquanto o agito ia acordando junto com os últimos raios de sol que banhavam as árvores da praça da igreja matriz. A partir dali parece que os segundos tocavam mais lentos. Nos perdemos em sonhos e planos deixando uma fitinha de N.S. da Ajuda amarrada atrás da igreja, são três nós, cada um reservado o direito a um pedido, feito, deixe a fé fazer sua parte. A rua Bróduei e do Mucugê é um shopping a céu aberto, restaurantes e lojas dividem espaço e se apresentam de todas as formas e estilos. Em cada olhar encontramos uma fachada diferente. Picanha na chapa, caldeirão de frutos do mar, cacau, imã de geladeira, chapéu de couro, pimentas, cores. Variedade para todos os gostos. Vale a pena pesquisar antes de escolher um lugar legal para comer, recomendo o TripAdvisor ou o bom e velho Google.

A noite prosseguiu como a viagem também seguiria. Era só o primeiro dia colocando palavras no dicionário da mente e imagens nos arquivos da lembrança.


Trecho Montes Claros - Porto Seguro no ATR600

Mirante, Centro Histórico. Porto Seguro

Cidade Histórica. Porto Seguro

Marco Zero, Cidade Histórica. Porto Seguro

Igreja N. Senhora D`Ajuda, Arraial D`Ajuda.

Rua Do Mucugê, Arraial D`Ajuda.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Ciclo das verdades, o eu de hoje para o de ontem.

O tempo trás o tom. Afasta mentiras e coloca verdades à tona. Velhos discursos não cabem em novos conceitos. Tapas nas costas é um incômodo. O que aparentemente era verdadeiro, hoje é falso.

Saber escolher os laços. Escutar o que os pais dizem. Santo que não bate na gente, ou no pai, ou na mãe, distância necessária. Por proteção. A seleção natural. Poucos amigos. Amigos poucos. O mundo não está aí para ser legal e não vai cansar de te decepcionar, crescer é enfrentar a realidade.

Esteja presente. Seja presente. Seja você. Autenticidade. Olho no olho. Sinceridade. Palavras não foram feitas para agradar, frases não são soltas para tirar sorrisos, textos não são escritos para serem aceitos.

O tom trás o tempo. Filtra. Mostra a face. O caminho a ser seguido é o da liberdade, da essência e do foda-se para os que não se agradam. Emancipação de pesos e culpas, sem deixar de lado o reconhecimento dos próprios deslizes pelo caminho.

Ajudar o próximo e ser ajudado.

Amar.

Viver.

Ser livre.

Do eu, para mim.