A materialização de um lugar
Estava sonhando alguma coisa que
não consigo me lembrar agora, só o barulho das ondas como plano de fundo, ondas
que quebravam e pareciam explosões. Explosões bem próximas. Fui despertando e
entre aquele vago momento de não saber se está acordado ou ainda sonhando as
ondas ainda estavam lá, com suas explosões constantes, era real! Estávamos
hospedados na Pedra do Negro, do Jarauí e família. Um lindo terreno gramado,
cheio de palmeiras e de frente para o mar. As cabanas são separadas, distantes,
quartos simples, mas muito bem estruturados. Quando se fala em hospedagem nem
sempre as pessoas procuram por luxo, mas sim por caprichos, minimalismo e
individualidades. Elas querem ser tratadas como seres únicos como realmente são
e se sentirem o mais próximo possível do conforto de casa. Locais que procuram
seguir um padrão, tratando hóspedes como se fossem todos iguais geralmente saem
atrás, mesmo se esse padrão for fruto de algum tipo de consultoria que se diz
especializada em hospitalidade. Pessoas não gostam de serem estereotipadas. E
Jarauí e sua família indígena fazem isso muito bem, escutando e sempre disposto
a atender suas necessidades. Na minha segunda ida para Caraíva, a hospedaria
Pedra do Negro foi novamente minha escolha e com certeza será em uma próxima
também.
Claro que abrir a janela de
madeira do quarto, pra ver aquele bombardeio de ondas quebrando ajudou - e
tanto. A janela abre como as cortinas de uma grande peça teatral, na sua frente
o mar, o dia nascendo, protagonistas de uma peça, a sua, chamada “bom dia”.
O café foi servido na varanda da
nossa cabana, além do café com leite tínhamos ovos mexidos, mamão com granola,
bolo de milho e tapioca. Tudo disposto em uma mesa com as cadeiras voltadas
para o mar, separando-nos por um campo gramado e palmeiras, que faziam aquele
conhecido barulho das folhas balançando a favor do vento. O simples quando
encontra o luxo é fruto dos melhores romances, já que temos muito a aprender
com simplicidade e esta quando vem em forma opulente é digna de tirar o fôlego.
Nos perdemos um pouco naquele
momento, observei meus pais tomarem café, como um rei e rainha que realmente
são. Guardei aquela imagem na memória, tínhamos pela frente um dia de verão em
Caraíva, quando estamos em um destino a sensação de que aquele momento será
eterno as vezes nos paralisa, somos plantados pelo conformismo de ter chegado
depois de tantas expectativas e sonhos. Como todos os sentimentos humanos,
alguns devem ser contornados, e em uma viagem todo minuto está ali para ser
vivido. E vivemos! Nosso caminho era a Praia do Satu, distante a uma caminhada
pela praia por cerca de 5 km. Logo que começamos a chuva veio, nos desafiou, o
céu estava acobertado por um lençol em forma de nuvens cinza e que logo foi se
dissipando pelos quentes raios de sol, quando parou tivemos uma sensação vívida
de termos sido presenteados, afinal tínhamos um longo caminho pela areia e o
azul do céu voltara.
Encontrei um golfinho morto no
caminho, trouxe parte do seu maxilar na mala como souvenir. Acho que foi para
dar um significado praquela partida, se o cheiro de putrefação permitir pretendo
trazer na mala, enquadra-lo e pendurar em algum lugar da minha casa como uma
recordação. Souvenir é levar na mala um momento, algo do que vivemos em uma
viagem, e quanto mais original maiores as recordações. Tem gente que chega até
ter problema com souvenirs, se tornam verdadeiros acumuladores de pedaços da
viagem, acreditam que todo instante passado deve ser condecorado com uma
lembrança, anos depois encontram esses mini pedaços encostados e esquecidos em
gavetas ou armários. Com o maxilar do golfinho pretendo fazer diferente.
Pretendo.
O caminho pelas areias das
bandas de cá ou até das bandas daí (ou em qualquer lugar na verdade) é uma
verdadeira reflexão, psicólogos dizem que é terapia, e faz sentido. O azul do
mar que com frequência nossos olhos são direcionados, em combinação com a linha
do horizonte, nos acalma. Pensamentos correm soltos a cada passo na areia, que
lixa nossas solas dos pés e polis os pensamentos. Por aqui o oceano começava a
se pintar de turquesa, com algumas manchas negras reflexo das nuvens, do lado
esquerdo víamos plantações de coqueiros e lá na frente falésias alaranjadas de
argila apontavam das areias, era o nosso destino. Me peguei observando as ondas
quebrando – de novo elas, bombardeios – e a sensação que seu formato é questão
de perspectiva. Independente do tamanho elas quebram iguais. Aquelas ali na
beira do mar poderiam ser gigantes em Jaws ou tsunamis que atingem o sudoeste
asiático. Um coco seco boiava na borda, era um barco sendo atingido em cheio
por aquele turbilhão monstruoso que o vazia virar em varias e varias vezes
antes da flutuação permitir deixar o fluxo passar e sobreviver na medida do
possível até a próxima onda.
Satu é bela, com algumas
rústicas barracas de praias e disputadas sombras, paredes de argila que surgem
das areias com cores que variam entre laranja, rosa e branco, a mistura de um
lago com o mar. Caminhar por 5 km no sol do verão e encontrar todo esse cenário
é digno de não se evitar o clichê de se dizer que “está em um cenário de filme
ou diante de um papel de parede do Windows”. Passamos algumas horas por ali,
imersos, vívidos e felizes.
Ler um bom livro em uma rede na
frente do mar. Caminhar pela noite nas ruas sob a luz da lua e luminárias
criativas que pendem das pousadas, brisa batendo no corpo, é divina, mar de
luz, luz de alma. A inspiração está presente. A noite vai indo embora levada
pelos ventos do oceano, eles vem de longe e levam para longe os pensamentos que
correm soltos em linhas retas. Caraíva inspira. Viagem parado.
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| Caminho para o Satu |








