segunda-feira, 1 de março de 2021

Diário de Viagem - Praia do Satu - Dia 4

 

A materialização de um lugar

Estava sonhando alguma coisa que não consigo me lembrar agora, só o barulho das ondas como plano de fundo, ondas que quebravam e pareciam explosões. Explosões bem próximas. Fui despertando e entre aquele vago momento de não saber se está acordado ou ainda sonhando as ondas ainda estavam lá, com suas explosões constantes, era real! Estávamos hospedados na Pedra do Negro, do Jarauí e família. Um lindo terreno gramado, cheio de palmeiras e de frente para o mar. As cabanas são separadas, distantes, quartos simples, mas muito bem estruturados. Quando se fala em hospedagem nem sempre as pessoas procuram por luxo, mas sim por caprichos, minimalismo e individualidades. Elas querem ser tratadas como seres únicos como realmente são e se sentirem o mais próximo possível do conforto de casa. Locais que procuram seguir um padrão, tratando hóspedes como se fossem todos iguais geralmente saem atrás, mesmo se esse padrão for fruto de algum tipo de consultoria que se diz especializada em hospitalidade. Pessoas não gostam de serem estereotipadas. E Jarauí e sua família indígena fazem isso muito bem, escutando e sempre disposto a atender suas necessidades. Na minha segunda ida para Caraíva, a hospedaria Pedra do Negro foi novamente minha escolha e com certeza será em uma próxima também.

Claro que abrir a janela de madeira do quarto, pra ver aquele bombardeio de ondas quebrando ajudou - e tanto. A janela abre como as cortinas de uma grande peça teatral, na sua frente o mar, o dia nascendo, protagonistas de uma peça, a sua, chamada “bom dia”.

O café foi servido na varanda da nossa cabana, além do café com leite tínhamos ovos mexidos, mamão com granola, bolo de milho e tapioca. Tudo disposto em uma mesa com as cadeiras voltadas para o mar, separando-nos por um campo gramado e palmeiras, que faziam aquele conhecido barulho das folhas balançando a favor do vento. O simples quando encontra o luxo é fruto dos melhores romances, já que temos muito a aprender com simplicidade e esta quando vem em forma opulente é digna de tirar o fôlego.

Nos perdemos um pouco naquele momento, observei meus pais tomarem café, como um rei e rainha que realmente são. Guardei aquela imagem na memória, tínhamos pela frente um dia de verão em Caraíva, quando estamos em um destino a sensação de que aquele momento será eterno as vezes nos paralisa, somos plantados pelo conformismo de ter chegado depois de tantas expectativas e sonhos. Como todos os sentimentos humanos, alguns devem ser contornados, e em uma viagem todo minuto está ali para ser vivido. E vivemos! Nosso caminho era a Praia do Satu, distante a uma caminhada pela praia por cerca de 5 km. Logo que começamos a chuva veio, nos desafiou, o céu estava acobertado por um lençol em forma de nuvens cinza e que logo foi se dissipando pelos quentes raios de sol, quando parou tivemos uma sensação vívida de termos sido presenteados, afinal tínhamos um longo caminho pela areia e o azul do céu voltara.

Encontrei um golfinho morto no caminho, trouxe parte do seu maxilar na mala como souvenir. Acho que foi para dar um significado praquela partida, se o cheiro de putrefação permitir pretendo trazer na mala, enquadra-lo e pendurar em algum lugar da minha casa como uma recordação. Souvenir é levar na mala um momento, algo do que vivemos em uma viagem, e quanto mais original maiores as recordações. Tem gente que chega até ter problema com souvenirs, se tornam verdadeiros acumuladores de pedaços da viagem, acreditam que todo instante passado deve ser condecorado com uma lembrança, anos depois encontram esses mini pedaços encostados e esquecidos em gavetas ou armários. Com o maxilar do golfinho pretendo fazer diferente. Pretendo.

O caminho pelas areias das bandas de cá ou até das bandas daí (ou em qualquer lugar na verdade) é uma verdadeira reflexão, psicólogos dizem que é terapia, e faz sentido. O azul do mar que com frequência nossos olhos são direcionados, em combinação com a linha do horizonte, nos acalma. Pensamentos correm soltos a cada passo na areia, que lixa nossas solas dos pés e polis os pensamentos. Por aqui o oceano começava a se pintar de turquesa, com algumas manchas negras reflexo das nuvens, do lado esquerdo víamos plantações de coqueiros e lá na frente falésias alaranjadas de argila apontavam das areias, era o nosso destino. Me peguei observando as ondas quebrando – de novo elas, bombardeios – e a sensação que seu formato é questão de perspectiva. Independente do tamanho elas quebram iguais. Aquelas ali na beira do mar poderiam ser gigantes em Jaws ou tsunamis que atingem o sudoeste asiático. Um coco seco boiava na borda, era um barco sendo atingido em cheio por aquele turbilhão monstruoso que o vazia virar em varias e varias vezes antes da flutuação permitir deixar o fluxo passar e sobreviver na medida do possível até a próxima onda.

Satu é bela, com algumas rústicas barracas de praias e disputadas sombras, paredes de argila que surgem das areias com cores que variam entre laranja, rosa e branco, a mistura de um lago com o mar. Caminhar por 5 km no sol do verão e encontrar todo esse cenário é digno de não se evitar o clichê de se dizer que “está em um cenário de filme ou diante de um papel de parede do Windows”. Passamos algumas horas por ali, imersos, vívidos e felizes.

Ler um bom livro em uma rede na frente do mar. Caminhar pela noite nas ruas sob a luz da lua e luminárias criativas que pendem das pousadas, brisa batendo no corpo, é divina, mar de luz, luz de alma. A inspiração está presente. A noite vai indo embora levada pelos ventos do oceano, eles vem de longe e levam para longe os pensamentos que correm soltos em linhas retas. Caraíva inspira. Viagem parado.

Caminho para o Satu

Sombra, Praia do Satu

Rio Caraíva
Caraíva
Caraíve-se
Carcaça de Golfinho
Falésias de Argila, Praia do Satu
Praia do Satu