terça-feira, 27 de abril de 2021

Diário de Viagem - Deixando Caraíva - Dia 5

 

A arte abstrata de um fim de tarde

Engraçado como quando falamos de viagem o executar acontece em tempo muito mais acelerado que o planejar. Horas são gastas sonhando, se transpondo para o destino em visualização mental e quando enfim estamos lá os momentos são devorados como um tubarão baleia devora cardumes inteiros de sardinha, em instantes acabou, quando se vê passou. E assim chegamos ao 5º dia de viagem por aqui. As coisas são assim mesmo, né? Gastamos mais o tempo supondo sobre a vida do que de fato vivendo.

Talvez por isso que o ritmo foi mais tranquilo pela manhã, sem pressa, deixando o relógio correr. Desacelerar em uma viagem faz parte - além de ser saudável - resta escolher os melhores momentos para isso. Depois de um café da manhã lento, observando as hipnóticas ondas, caminhamos até a Aldeia do Xandó, chegamos lá devagar, um passo de cada vez naquelas areias cor de gema e grossa como um crème brulee. Nossos pés foram esfoliando pelo caminho. Junior, baiano viajado e com lábia de vendedor de carro nos abordou na praia, disse que a Barraca Licuri era nossa melhor escolha para relaxar olhando o mar acompanhado de boa comida. Aceitamos sua oferta. Como boas vindas trouxe Biri Birí, uma fruta azeda igual limão com traços de carambola. Misturando ela com pitaya, cachaça e gelo, forma uma combinação harmoniosa. Copo disposto sobre uma mesa de madeira rústica e envelhecida, pés na areia, vista panorâmica do mar, que nessa altura do dia estava anil, aonde golfinhos e tartarugas nos saudavam de tempos em tempos.

Pela tarde, já de volta na cabana, um momento que marcou foram duas crianças indígenas, com nomes que não conseguirei me lembrar nunca mais a não ser que encontre eles por Caraíva novamente. Vendiam artesanato. Minha mãe se encantou, comprou um enfeite de cabelo com penas (espero não ser dos passarinhos da região, galinhas talvez) e meu pai ofereceu bolo. Só um dos tantos exemplos quando temos o privilégio de viajar com nossos pais, os seres que nos educaram continuarão nos educando aonde forem.

O tempo nublou no final da tarde, acobertando o sol como se fosse uma cama para seu deleito, as nuvens formavam o lençol. Sol amarelo, raios dourados, nuvens brancas, cinzas e escuras. Mar azul, areia, coqueiros. Todas dentro de um liquidificador. Tons, elementos, astros. Figuras distintas que quando misturadas formaram uma aquarela abstrata de Kandinsky ao vivo e diante dos meus olhos.

Fato consumado consumiu minhas atenções, estupefato, discorrer dos momentos que sucederam é desnecessário, fomos coroados. Como todo turista é desde que esteja atento a romantizar os romantizáveis detalhes que correm ao redor.

Até a próxima.



Cavala frita da Barraca Licuri






 

O nosso último registro dessa passagem por Caraíva.