A arte abstrata de um fim de tarde
Engraçado como quando falamos de
viagem o executar acontece em tempo muito mais acelerado que o planejar. Horas
são gastas sonhando, se transpondo para o destino em visualização mental e
quando enfim estamos lá os momentos são devorados como um tubarão
baleia devora cardumes inteiros de sardinha, em instantes acabou, quando se vê
passou. E assim chegamos ao 5º dia de viagem por aqui. As coisas são assim
mesmo, né? Gastamos mais o tempo supondo sobre a vida do que de fato vivendo.
Talvez por isso que o ritmo foi
mais tranquilo pela manhã, sem pressa, deixando o relógio correr. Desacelerar
em uma viagem faz parte - além de ser saudável - resta escolher os melhores
momentos para isso. Depois de um café da manhã lento, observando as hipnóticas
ondas, caminhamos até a Aldeia do Xandó, chegamos lá devagar, um passo de cada
vez naquelas areias cor de gema e grossa como um crème brulee. Nossos pés foram
esfoliando pelo caminho. Junior, baiano viajado e com lábia de vendedor de
carro nos abordou na praia, disse que a Barraca Licuri era nossa melhor escolha
para relaxar olhando o mar acompanhado de boa comida. Aceitamos sua oferta.
Como boas vindas trouxe Biri Birí, uma fruta azeda igual limão com traços de
carambola. Misturando ela com pitaya, cachaça e gelo, forma uma combinação
harmoniosa. Copo disposto sobre uma mesa de madeira rústica e envelhecida, pés
na areia, vista panorâmica do mar, que nessa altura do dia estava anil, aonde
golfinhos e tartarugas nos saudavam de tempos em tempos.
Pela tarde, já de volta na
cabana, um momento que marcou foram duas crianças indígenas, com nomes
que não conseguirei me lembrar nunca mais a não ser que encontre eles por
Caraíva novamente. Vendiam artesanato. Minha mãe se encantou, comprou um
enfeite de cabelo com penas (espero não ser dos passarinhos da região, galinhas
talvez) e meu pai ofereceu bolo. Só um dos tantos exemplos quando temos o
privilégio de viajar com nossos pais, os seres que nos educaram continuarão nos
educando aonde forem.
O tempo nublou no final da
tarde, acobertando o sol como se fosse uma cama para seu deleito, as nuvens
formavam o lençol. Sol amarelo, raios dourados, nuvens brancas, cinzas e
escuras. Mar azul, areia, coqueiros. Todas dentro de um liquidificador. Tons,
elementos, astros. Figuras distintas que quando misturadas formaram uma
aquarela abstrata de Kandinsky ao vivo e diante dos meus olhos.
Fato consumado consumiu minhas
atenções, estupefato, discorrer dos momentos que sucederam é desnecessário, fomos
coroados. Como todo turista é desde que esteja atento a romantizar os
romantizáveis detalhes que correm ao redor.
Até a próxima.
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| Cavala frita da Barraca Licuri |
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| O nosso último registro dessa passagem por Caraíva. |







