O
retorno ao início
Cada jornada propõe uma nova
oportunidade de olhar as coisas sob outros ângulos e perspectivas. Detalhes
sempre passam despercebidos até nos olhos mais treinados. Dessa vez meus
companheiros de aventura são minha mãe e meu pai.
De São Paulo a Porto Seguro,
um longo trajeto entre escalas e conexões, o novo normal de se viajar na
pandemia. As aéreas estão se ajustando para evitar prejuízos. O ponto positivo foi o trecho em um avião turboélice da Azul, especificamente o ATR600 72 passageiros
que acessam a aeronave por uma micro escada pouco habitual. No voo, me senti
uma formiga pegando carona em um planador de papel, lembrando os velhos tempos
de Flight Simulator, pra quem jogou nos anos 2000 vai entender melhor a
sensação.
Já em Porto Seguro fomos
direto para a Cidade Histórica, que fica nas proximidades. Palco de batalhas e
encontros, o que no passado andou em guarda, hoje o tempo balanceou as
tendências, fazendo o silêncio falar mais alto naquelas vielas e campos
gramados em meio a construções históricas e ruinas. Casas que hoje são lojas de
souvenirs e que um dia separavam classes com suas eiras e beiras, formam uma
aquarela de cores, telas de pinturas que vemos por ai que retratam o
colonialismo, agora diante dos olhos. Filas com fachadas azul, amarelo, verde. Cores do Brasil. Lugares assim me agradam, uma viagem ao passado que é ativada
por essa ilusão ótica gerada quando enxergamos esses cenários históricos com pouca
interferência a olho nu do mundo moderno.
Caminhando pelos gramados verdes cor de
abacate verde (abacate verde chega a ser pleonasmo, mas quando não maduro o verde é
mais claro, confira), tive tempo de comprar do índio cascas de Dr. Imbira, sob
defesa de ser uma planta medicinal pelo seu poder de cura e regeneração dos
órgãos como o rim e o fígado. A julgar pelo gosto amargo - que me lembrou aqueles
remédios horríveis de infância que nossos pais colocavam na nossa boca ligeiro
sem perguntar - já fui convencido logo de início.
A Paróquia Nossa Senhora da
Pena, a Igreja de São Benedito, aquela árvore linda. Todas mereceram a atenção
dos nossos olhos que se perderam em detalhes por minutos. Além do Marco Zero, o
acarajé da Neuza, dos sucos do Nelson e as cocadas da moça do lado. Lugares e
pessoas que seguem o tempo e suas vidas, e uma quarta feira que seguia também.
Já chegando em Arraial
D’Ajuda após a travessia de balsa tivemos um imprevisto com a nossa pousada, que
havíamos reservado pela internet. Propaganda enganosa, efeito da foto, o mundo
virtual trás isso. Quando saímos de casa rumo ao descobrimento e o
desconhecido, por mais que é possível evitar percalços com muita pesquisa e
planejamento, mas nunca estaremos blindados. Agir com normalidade, calma e ser
flexível são atributos que devem ir na mala. Logo conseguimos outra opção de
pousada, e transformamos esse momento em apenas uma vírgula no livro da nossa viagem.
Tínhamos pela frente o final
de tarde no vilarejo de Arraial, que foi gasto com um caminhar nas suas ruas de
paralelepípedo, gastando a sola e o tempo que corria despretensioso enquanto o
agito ia acordando junto com os últimos raios de sol que banhavam as árvores da
praça da igreja matriz. A partir dali parece que os segundos tocavam mais
lentos. Nos perdemos em
sonhos e planos deixando uma fitinha de N.S. da Ajuda amarrada atrás da igreja,
são três nós, cada um reservado o direito a um pedido, feito, deixe a fé fazer
sua parte. A rua Bróduei e do Mucugê é um shopping a céu aberto, restaurantes e
lojas dividem espaço e se apresentam de todas as formas e estilos. Em cada olhar
encontramos uma fachada diferente. Picanha na chapa, caldeirão de
frutos do mar, cacau, imã de geladeira, chapéu de couro, pimentas, cores.
Variedade para todos os gostos. Vale a pena pesquisar antes de escolher um
lugar legal para comer, recomendo o TripAdvisor ou o bom e velho Google.
A noite prosseguiu como a
viagem também seguiria. Era só o primeiro dia colocando palavras no dicionário
da mente e imagens nos arquivos da lembrança.







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