Café quente na boca, adoçado
com mel regional, observando o vale a frente nos intervalos de cada gole.
Pensamentos se voltavam para a corredeira e quedas formadas pelo rio
Laranjeira. A agua que descia era da mesma cor do café - espumosa e do tipo
expresso - que viajavam quilômetros em meio a uma linda paisagem, lavando as pedras,
trazendo toda matéria orgânica e energia pelo caminho. Raiava o último dia
completo por aquela região, encerrando nossa passagem em 2020 na Diamantina.
Fomos atrás de LP, indicação
do Nito do Capão, não foi difícil, aqui todos se conhecem, a primeira pessoa
abordada na rua te leva para quem está procurando. LP nos indicou o guia Nem,
nativo da região, contador de histórias, apreciador vívido das trilhas,
trekkings e montanhismo. Não troca Igatu por nada. Nos guiou para a Cachoeira
da California, um trajeto cheio de adrenalina, que incluía atravessar uma forte
corredeira com risco quase iminente de morte em caso de um leve escorregão
pelas suas pedras lisas e polidas. Passamos pelo caminho dos antigos tropeiros
que ali cruzavam no passado, além de vilarejos abandonados junto com o garimpo,
deixando ruas e casas de pedras ao relento, visão fantasmagórica. Aliás, as
pedras estão presentes em todos os lugares, formam morros e construções, é
parte da identidade de Igatu, não a toa conhecida como Machu Pichu Baiana. Voltando
a trilha, mais obstáculos foram escalados para enfim chegarmos à esperada queda.
Diferente de todas as outras, as aguas surgiam por dentro de uma gruta,
descendo ferozmente em pancadas sobre uma lajota que resistia aquela
surra hídrica. Como é incrível a sensação da agua gelada em contraste com o
calor libertado pelo nosso corpo depois de uma caminhada pelos ares húmidos de
lá, ficou guardado.
O dia ainda reservou conhecer a Cachoeira do Córrego do Meio que é próxima a vila. Também muita
comida boa, famoso tempero caseiro, especiarias da região, culinária típica feita
pelas mãos abençoadas de velhas cozinheiras que dispunham de experiência e
improvisação que o passado exigiu. Restaurante Chic Chic da Lourdes, suco de
manga, mangaba e PF de frango com farofa de soja. À noite fomos ao restaurante
e bar do Néu, produtor de cachaça artesanal com frutas das redondezas, provamos
a de pitanga, acompanhada de carne de sol, purê de aipim e conversa. Falamos
das lendas das montanhas, o poder medicinal das plantas que cresciam por ali e
as luzes que vez ou outra apareciam misteriosamente no céu.
Ouvindo uma leve chuva gotejar nas rochas, o barulho do vento que corre o vale e a trilha sonora dos animais noturnos, refletimos sobre os últimos 8 dias que passamos por essa região. Quando a vida é uma novidade os dias se tornam mais longos, as descobertas surgem a cada instante e viver é uma prática única e exclusivamente prazerosa. Ainda temos alguns momentos antes de partir, por hora não desejamos ser acordados de um sonho vívido. Que ele prossiga.
![]() |
| Vista do Café da Manhã - Rio Laranjeira |
![]() |
| Cachoeira do Córrego do Meio |









Nenhum comentário:
Postar um comentário