terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 8 - Chapada Diamantina - Igatu & Cachoeira da Califórnia


Um sonho acordado

Café quente na boca, adoçado com mel regional, observando o vale a frente nos intervalos de cada gole. Pensamentos se voltavam para a corredeira e quedas formadas pelo rio Laranjeira. A agua que descia era da mesma cor do café - espumosa e do tipo expresso - que viajavam quilômetros em meio a uma linda paisagem, lavando as pedras, trazendo toda matéria orgânica e energia pelo caminho. Raiava o último dia completo por aquela região, encerrando nossa passagem em 2020 na Diamantina.

Fomos atrás de LP, indicação do Nito do Capão, não foi difícil, aqui todos se conhecem, a primeira pessoa abordada na rua te leva para quem está procurando. LP nos indicou o guia Nem, nativo da região, contador de histórias, apreciador vívido das trilhas, trekkings e montanhismo. Não troca Igatu por nada. Nos guiou para a Cachoeira da California, um trajeto cheio de adrenalina, que incluía atravessar uma forte corredeira com risco quase iminente de morte em caso de um leve escorregão pelas suas pedras lisas e polidas. Passamos pelo caminho dos antigos tropeiros que ali cruzavam no passado, além de vilarejos abandonados junto com o garimpo, deixando ruas e casas de pedras ao relento, visão fantasmagórica. Aliás, as pedras estão presentes em todos os lugares, formam morros e construções, é parte da identidade de Igatu, não a toa conhecida como Machu Pichu Baiana. Voltando a trilha, mais obstáculos foram escalados para enfim chegarmos à esperada queda. Diferente de todas as outras, as aguas surgiam por dentro de uma gruta, descendo ferozmente em pancadas sobre uma lajota que resistia aquela surra hídrica. Como é incrível a sensação da agua gelada em contraste com o calor libertado pelo nosso corpo depois de uma caminhada pelos ares húmidos de lá, ficou guardado.

O dia ainda reservou conhecer a Cachoeira do Córrego do Meio que é próxima a vila. Também muita comida boa, famoso tempero caseiro, especiarias da região, culinária típica feita pelas mãos abençoadas de velhas cozinheiras que dispunham de experiência e improvisação que o passado exigiu. Restaurante Chic Chic da Lourdes, suco de manga, mangaba e PF de frango com farofa de soja. À noite fomos ao restaurante e bar do Néu, produtor de cachaça artesanal com frutas das redondezas, provamos a de pitanga, acompanhada de carne de sol, purê de aipim e conversa. Falamos das lendas das montanhas, o poder medicinal das plantas que cresciam por ali e as luzes que vez ou outra apareciam misteriosamente no céu.

Ouvindo uma leve chuva gotejar nas rochas, o barulho do vento que corre o vale e a trilha sonora dos animais noturnos, refletimos sobre os últimos 8 dias que passamos por essa região. Quando a vida é uma novidade os dias se tornam mais longos, as descobertas surgem a cada instante e viver é uma prática única e exclusivamente prazerosa. Ainda temos alguns momentos antes de partir, por hora não desejamos ser acordados de um sonho vívido. Que ele prossiga.


Vista do Café da Manhã - Rio Laranjeira
Cachoeira do Córrego do Meio

Antiga vila de garimpeiros
Gastronomia rica
Restaurantes Chic Chic da Lourdes
Travessia arriscada

Cachoeira da Califórnia
Um fim de tarde na memória

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