sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

Diário de Viagem - Dia 5 - Chapada Diamantina - Vale do Capão, Poço dos Milagres e Conceição dos Gatos.


Detalhes corriqueiros

Certos presentes a natureza nos da através da espontaneidade, o singelo. Esta manhã fomos acordados por um sabiá laranjeira que bicava a pequena janela de vidro atrás do quarto. Anunciando o novo dia, chamando pelo raiar, hora do café. Reparei que alguns outros pássaros nos olhavam curiosos das árvores na frente do jardim, entre rasantes e pios, parece que falavam com a gente. Pediam pelo desjejum diário. Algumas frutas foram o bastante. Eles vieram. Sabiás, galinhas do mato, pintassilgos, periquitos e outros. Desfilaram com plumas coloridas, cantando, brindando o dia e uns pedaços de banana.

Passeio pelo Poço dos Milagres, morro aos fundos anunciando mais uma vez o silêncio. Aliás, para quem vem da cidade a falta de barulho é uma das estrelas da Chapada, engraçado como é no vazio e na falta de som que se encontra algo tão admirável. O caminho é uma trilha em linha reta por um solo argiloso e muitas abelhas no ar - justificando a origem do famoso mel da região - que voavam livremente, se banqueteando das típicas flores amarelas, minúsculas e que brotavam em cachos. O poço é formado após uma cachoeira em formato de uma larga rampa, parecendo um grande tobogã, foi possível descer pela sua lateral para uma visão jamais vista de um ângulo horizontal das quedas.

Ida para Conceição dos Gatos, entrada pelo restaurante do Zezão, taxa de R$10, trilha de acesso curta e que margeia um antigo canal da época do minério. Mais alguns pés de fruta pelo caminho, visão que já começávamos a nos habituar, e chegamos a grande queda. Algumas piscinas naturais se formam no seu topo, imagem digna daqueles hotéis 5 estrelas que esbanjam artificiais piscinas de borda infinita. Fomos antecipados pela chuva, daquelas que ensopam. Fazia tempo. Tomar chuva é assim, se a gente tem a opção geralmente escolhe pelo não, mas quando acontece conhecemos (ou relembramos) o jus da expressão “se está na chuva é para se molhar”, aceitamos, permitimos e curtimos então o fato.

No restaurante do Zezão fomos presenteados com conversas amigáveis, suco cítrico adocicado de uvalha e o famoso pastel de jaca. O processo é feito com a jaca verde, uma fruta típica da mata atlântica que nasce aos montes no Brasil. A árvore, de folhas escuras e largas, cresce sem fim e quanto mais antiga melhor o fruto, um presente para a paciência. Porém o brasileiro tem em sua virtude a adaptação, logo, adaptaram a jaca, de fruta doce, criaram sua versão salgada, com gosto de frango temperado com cominho, colorau e outras ervas baianas.

Dia sendo encerrado com chuva lá fora, esse texto sendo escrito da janela de madeira da cozinha, vista para o verde, o molhado, as gotas, um blues acústico de fundo jogando ao ar notas agudas e graves, harmonizando com o chiado da agua caindo.

Antes dos olhos se fecharem um vagalume dentro do quarto, brilhando, nos dando boa noite, uma iluminada visita, em ambos os sentidos. 

Na caminho do Poços dos Milagres
Poço dos Milagres
Companhia no Café

Natureza colorida e aromática

Trilha para Conceição dos Gatos
Pastel de Jaca

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