Detalhes corriqueiros
Certos presentes a natureza nos da através da espontaneidade, o singelo.
Esta manhã fomos acordados por um sabiá laranjeira que bicava a pequena janela
de vidro atrás do quarto. Anunciando o novo dia, chamando pelo raiar, hora do
café. Reparei que alguns outros pássaros nos olhavam curiosos das árvores na
frente do jardim, entre rasantes e pios, parece que falavam com a gente. Pediam
pelo desjejum diário. Algumas frutas foram o bastante. Eles vieram. Sabiás,
galinhas do mato, pintassilgos, periquitos e outros. Desfilaram com plumas
coloridas, cantando, brindando o dia e uns pedaços de banana.
Passeio pelo Poço dos Milagres, morro aos fundos anunciando mais uma vez
o silêncio. Aliás, para quem vem da cidade a falta de barulho é uma das
estrelas da Chapada, engraçado como é no vazio e na falta de som que se
encontra algo tão admirável. O caminho é uma trilha em linha reta por um solo
argiloso e muitas abelhas no ar - justificando a origem do famoso mel da região
- que voavam livremente, se banqueteando das típicas flores amarelas,
minúsculas e que brotavam em cachos. O poço é formado após uma cachoeira em
formato de uma larga rampa, parecendo um grande tobogã, foi possível descer
pela sua lateral para uma visão jamais vista de um ângulo horizontal das
quedas.
Ida para Conceição dos Gatos, entrada pelo restaurante do Zezão, taxa de
R$10, trilha de acesso curta e que margeia um antigo canal da época do minério.
Mais alguns pés de fruta pelo caminho, visão que já começávamos a nos habituar,
e chegamos a grande queda. Algumas piscinas naturais se formam no seu topo,
imagem digna daqueles hotéis 5 estrelas que esbanjam artificiais piscinas de
borda infinita. Fomos antecipados pela chuva, daquelas que ensopam. Fazia
tempo. Tomar chuva é assim, se a gente tem a opção geralmente escolhe pelo não,
mas quando acontece conhecemos (ou relembramos) o jus da expressão “se está na
chuva é para se molhar”, aceitamos, permitimos e curtimos então o fato.
No restaurante do Zezão fomos presenteados com conversas amigáveis, suco
cítrico adocicado de uvalha e o famoso pastel de jaca. O processo é feito com a
jaca verde, uma fruta típica da mata atlântica que nasce aos montes no Brasil.
A árvore, de folhas escuras e largas, cresce sem fim e quanto mais antiga
melhor o fruto, um presente para a paciência. Porém o brasileiro tem em sua
virtude a adaptação, logo, adaptaram a jaca, de fruta doce, criaram sua versão
salgada, com gosto de frango temperado com cominho, colorau e outras ervas
baianas.
Dia sendo encerrado com chuva lá fora, esse texto sendo escrito da
janela de madeira da cozinha, vista para o verde, o molhado, as gotas, um blues
acústico de fundo jogando ao ar notas agudas e graves, harmonizando com o
chiado da agua caindo.
Antes dos olhos se fecharem um vagalume dentro do quarto, brilhando, nos dando boa noite, uma iluminada visita, em ambos os sentidos.
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| Na caminho do Poços dos Milagres |
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| Companhia no Café |
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| Natureza colorida e aromática |
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| Trilha para Conceição dos Gatos |
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| Pastel de Jaca |







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