Criança Nativa
Último dia cheio em Itacaré,
começamos nossa despedida da Bahia, não sei se o ar de partida fortaleceu, mas
hoje tudo parece ter começado no nível de intensidade maior, mais cores, mais
sabores, mais sentimentos.
Praia de Jeribucaçu nos
trouxe logo de início lembranças recentes da Chapada, acesso através de um
bairro pequeno, de volta a estrada de terra batida, já sentia saudades disso.
Depois de deixar o carro no estacionamento todo gramado e em meio às árvores,
Carlos, o dono, nos deu o caminho. “Segue pela trilha, a ladeira da volta é
braba, e tudo que precisar vai encontrar lá na praia”. E encontramos. O
encontro do rio com o mar, no ar o cheiro de peixe assado na brasa saia das barracas
rústicas e sem energia elétrica de famílias de nativos. A cavala foi assando no
carvão aceso na churrasqueira improvisada na areia, servida com arroz, farofa
de banana, azeite e ervas. Gastronomia rica da Carmem Lucia e sua família,
responsáveis pela Barraca JK, nos deram uma verdadeira aula de criar algo
marcante com pouco, provando que em matéria de pratos e alimentos não é o luxo
que manda.
Outro detalhe que é colírio
para os olhos é o rio que desagua no mar em meio a coqueiros na paisagem
cênica. Chegamos um pouco tarde e já pegamos a cheia da maré, que aos poucos ia
dominando a faixa de areia, alagando tudo como tsunamis em miniatura, trazendo
certa ação para um melancólico final de tarde que nos avisava que nosso tempo
aos poucos chegava ao fim, assim como um dia chegou para tantos turistas que
por ali passaram, e nós insistíamos para que fossemos os últimos, não do lugar,
mas daquele dia. Por isso ficamos. Ficamos até a praia esvaziar. O vento soprar
mais forte e frio, afastando o sol e anunciando a chegada dos primeiros tons da
noite no céu. Crianças locais brincavam no rio, pareciam saber cada canto
daquele lugar, pediam passagem, pois o momento era deles, sorriam sorriso
sincero, falavam alto e brindavam aquela rotina de um domingo qualquer. Algumas
de cuecas e biquínis improvisados, simples para alguns, luxo para outros. As
peles insistentemente bronzeadas pelos raios de sol davam a identidade nativa. O
que o futuro resguardava para elas? Migrariam para a cidade grande? Seguiriam o
caminho sofrido dos pais? Independente, o que ficou claro era que naquele
momento todas estavam felizes, brindando o presente que a natureza dava para seus
filhos, os filhos do mar.
A lua iluminou a Pituba
hoje, vamos sentir saudades do ar descontraído desse lugar, das tantas opções
gastronômicas, das pessoas diferentes pelas calçadas, da musica nos cantos, as
formas semi urbanas de uma cidade praiana não desenvolvida que dão um charme
exótico e único, identidade própria do lugar, faz com que Itacaré não seja a
Indonésia e nem o Havaí, porque não é um destino cópia de nenhum, é lugar único,
encontrar algo parecido por aí é uma procura em vão.
Ter terminado essa terceira
parte da viagem na praia foi uma excelente escolha. Inicialmente foi difícil
ter deixado pra trás a Chapada Diamantina, mas o Oceano levou o contraste, tão
importante para abrilhantar as diferenças. Ter largado as montanhas trouxe
sintomas de saudade assim que se tornou ausente, agora que amanhã deixamos
Itacaré escrevo essas linhas jogando palavras no papel e o coração no ar,
desejando que o tempo parasse por um momento e que o mar nos levasse por aí com
suas ondas, como um último drop, um último caldo, sempre mais um momento no tempo,
mais uma volta no relógio.
Mas ele continua com o seu tic tac constante, vida não para. Mas damos passagem para ela continuar, pois é na continuidade que encontraremos as próximas aventuras.
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| Acesso a praia |






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