terça-feira, 10 de novembro de 2020

 O sonho de uma criança

Um dia tive um sonho com uma criança. Ela vestia uma camiseta de manga, era preta com desenhos de chamas e uma caveira – um pouco heavy metal demais pensei – e uma bermuda de listras azul e branca. Os pés eram delicados e estavam calçados numa versão miniatura de um chinelo raider com algum desenho infantil dos anos 90 estampado.

Estávamos em um lindo jardim, com árvores antigas e altas, flores brancas e violetas, um gramado bem verde e pela luz amarelada do céu deduzi que o sol aos poucos ia se despedindo.

Essa criança sorriu pra mim, era o sorriso mais puro e lindo que já tinha visto, sua maior virtude. Seus cabelos eram de um tom loiro escuro, os olhos verdes da cor das folhas da antiga paineira que embelezava os fundos da paisagem. Em seguida, a criança me pegou pelas mãos e me guiou para um velho banco azul de madeira, notei que em frente ao banco havia uma mesa e sob ela uma TV. Ainda sorrindo, a criança fez um pedido, que eu assistisse pacientemente a um filme que passaria ali.

O filme começou, as cortinas se abriram na primeira imagem diante de mim e, para minha surpresa, vi de imediato o menino naquele filme. Ele estava diante de uma casa simples, com paredes brancas, cercada de terrenos baldios, cheios de mato ao redor. Era situada em uma irregular e esburacada rua de terra de onde veio caminhando a criança, e parou na frente do portão, este de madeira e pintado de um azul claro já desgastado pelo tempo e pela maresia, mal parecia se sustentar ao redor do sinuoso muro de blocos não pintados que demarcavam o terreno da casa.

O velho portão se abriu para aquela criatura divina, e um senhor de 80 anos o recebeu, a idade já lhe apontara a necessidade do uso de óculos de lentes grossas, lhe faltavam cabelos, tinha bigode, rosto rabugento que camuflava o amor, este traduzido em forma de cafuné na criança. Aquele terreno era seu laboratório de plantas, plantava tudo que tinha vontade. “Vô, que planta é essa aqui no canto?” “Isso é amendoim, crescem dentro da terra, tem que cuidar com a bola de futebol porque eles ainda precisam crescer mais” “Vô, depois do almoço a gente pode fazer fogueira?” “Eu te ajudo, mas não fala pra sua vó e nem pra sua mãe viu menino incendiário?”.

Redes penduradas na espaçosa varanda. Tios e primos conversavam a respeito do agitado dia na praia e faziam planos de ir para o centro da cidade a noite, era sábado, dia da “feirinha”. Na cozinha a panela de pressão anunciava que a batata estava cozida, “hoje tem maionese” pensou o menino. E se tinha coisa melhor que maionese combinada com macarrão ele ainda iria descobrir.

A vó nunca dispensava um caloroso abraço e um beijo no neto, que não era muito fã de demonstrações de afeto, todo mundo queria beijar, apertar, abraçar. Mas a vó era diferente, ela elogiava olhando no olho e sorrindo, “menino lindo da vó”, suas mãos eram quentes e seu carinho relaxava, ele ainda não tinha descoberto o significado de paz, mas sem dúvida essa palavra estava nos braços daquela velhinha.

O filme era lindo, tinha infância, família, sorrisos e um tempo que guardava sonhos e o futuro pela frente. Retratava sem dúvidas dias felizes da criança, mas fui desperto por ele, me pediu para não ficar triste, mas o filme tinha chegado ao fim. Olhando no fundo dos meus olhos, senti minha alma sendo tocada, “não fique triste que acabou e eu precise ir embora, porque eu sempre estarei aí, dentro do seu coração, lembre-se de mim sempre que puder que você vai sentir minha presença” dizendo isso partiu.

Nunca vou me esquecer daquele menino, ele se chamava Renan.       

                

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