O sonho de uma criança
Um dia tive um sonho com uma
criança. Ela vestia uma camiseta de manga, era preta com desenhos de chamas e
uma caveira – um pouco heavy metal demais pensei – e uma bermuda de listras
azul e branca. Os pés eram delicados e estavam calçados numa versão miniatura
de um chinelo raider com algum desenho infantil dos anos 90 estampado.
Estávamos em um lindo jardim, com
árvores antigas e altas, flores brancas e violetas, um gramado bem verde e pela
luz amarelada do céu deduzi que o sol aos poucos ia se despedindo.
Essa criança sorriu pra mim, era
o sorriso mais puro e lindo que já tinha visto, sua maior virtude. Seus cabelos
eram de um tom loiro escuro, os olhos verdes da cor das folhas da antiga
paineira que embelezava os fundos da paisagem. Em seguida, a criança me pegou
pelas mãos e me guiou para um velho banco azul de madeira, notei que em frente
ao banco havia uma mesa e sob ela uma TV. Ainda sorrindo, a criança fez um
pedido, que eu assistisse pacientemente a um filme que passaria ali.
O filme começou, as cortinas se
abriram na primeira imagem diante de mim e, para minha surpresa, vi de imediato
o menino naquele filme. Ele estava diante de uma casa simples, com paredes
brancas, cercada de terrenos baldios, cheios de mato ao redor. Era situada em
uma irregular e esburacada rua de terra de onde veio caminhando a criança, e
parou na frente do portão, este de madeira e pintado de um azul claro já
desgastado pelo tempo e pela maresia, mal parecia se sustentar ao redor do
sinuoso muro de blocos não pintados que demarcavam o terreno da casa.
O velho portão se abriu para
aquela criatura divina, e um senhor de 80 anos o recebeu, a idade já lhe apontara
a necessidade do uso de óculos de lentes grossas, lhe faltavam cabelos, tinha
bigode, rosto rabugento que camuflava o amor, este traduzido em forma de cafuné
na criança. Aquele terreno era seu laboratório de plantas, plantava tudo que
tinha vontade. “Vô, que planta é essa aqui no canto?” “Isso é amendoim, crescem
dentro da terra, tem que cuidar com a bola de futebol porque eles ainda
precisam crescer mais” “Vô, depois do almoço a gente pode fazer fogueira?” “Eu
te ajudo, mas não fala pra sua vó e nem pra sua mãe viu menino incendiário?”.
Redes penduradas na espaçosa
varanda. Tios e primos conversavam a respeito do agitado dia na praia e faziam
planos de ir para o centro da cidade a noite, era sábado, dia da “feirinha”. Na
cozinha a panela de pressão anunciava que a batata estava cozida, “hoje tem
maionese” pensou o menino. E se tinha coisa melhor que maionese combinada com
macarrão ele ainda iria descobrir.
A vó nunca dispensava um caloroso
abraço e um beijo no neto, que não era muito fã de demonstrações de afeto, todo
mundo queria beijar, apertar, abraçar. Mas a vó era diferente, ela elogiava
olhando no olho e sorrindo, “menino lindo da vó”, suas mãos eram quentes e seu
carinho relaxava, ele ainda não tinha descoberto o significado de paz, mas sem
dúvida essa palavra estava nos braços daquela velhinha.
O filme era lindo, tinha
infância, família, sorrisos e um tempo que guardava sonhos e o futuro pela
frente. Retratava sem dúvidas dias felizes da criança, mas fui desperto por
ele, me pediu para não ficar triste, mas o filme tinha chegado ao fim. Olhando
no fundo dos meus olhos, senti minha alma sendo tocada, “não fique triste que
acabou e eu precise ir embora, porque eu sempre estarei aí, dentro do seu
coração, lembre-se de mim sempre que puder que você vai sentir minha presença”
dizendo isso partiu.
Nunca
vou me esquecer daquele menino, ele se chamava Renan.
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